Um olho no lance e outro na arquibancada.

Fábio Bonini

18 Abril 2012 | 15h22

Muito se fala das obras e da infraestrutura que precisa ser construída para recebermos a Copa do Mundo em 2014. Mas, talvez a maior reforma necessária seja a da postura dos torcedores brasileiros. A paixão pelo futebol e pelos times é usada como justificativa para violência de todo tipo. No final de março, uma pessoa morreu em um conflito entre palmeirenses e corintianos. Uma vida perdida estupidamente, assim como tantas outras em tantos outros conflitos.

Nos estádios, as torcidas (que não devem ser organizadas no atual modelo) precisam ficar separadas e a chegada e a saída de torcedores precisam ser cuidadosamente planejadas – lamentável que por causa de times diferentes estas pessoas não podem sequer se encontrar nas ruas. Comboios e esquemas envolvendo transporte público e operações de trânsito são armados para evitar qualquer contato entre os torcedores. Será que torcedores de outras seleções, vindos de outros países, vão precisar se enquadrar nestes esquemas para poder circular com segurança pelo Brasil?

A postura dos torcedores brasileiros quando a seleção canarinho entrar em campo me preocupa mais do que o desempenho dos nossos jogadores. Num país onde torcidas adversárias não podem se encontrar, como serão recebidas as torcidas de outros países? E qual será a atitude de corintianos, flamenguistas, gremistas, são paulinos, palmeirenses e torcedores de tantos times brasileiros quando eles estiverem misturados, todos do mesmo lado do “cordão de isolamento”? Os mesmos torcedores que promovem espetáculos de violência nos campeonatos nacionais e estaduais estarão nas arquibancadas da Copa do Mundo.

E, pior, terão acesso a bebidas alcoólicas durante os jogos. A proibição do consumo de cerveja diminuiu em 70% a violência nos estádios de Belo Horizonte, por exemplo. Além dos conhecidos efeitos da turba (a “personalidade” da massa domina a personalidade dos indivíduos que a compõe), o álcool potencializará este e outros problemas de comportamento de nossos torcedores causando toda sorte de conflitos, acidentes de trânsito e atropelamentos. Mesmo em eventos esportivos em que a violência entre torcidas não assusta, é proibido beber dentro e ao redor dos estádios. O que já é horroroso, ficará pior.

Um evento esportivo deve ser motivo de confraternização, de integração entre as pessoas e de alegria. Receber bem os turistas e torcedores das seleções adversárias é fundamental. Evitar qualquer tipo de violência associada ao futebol é uma obrigação – legal e moral. A realização da Copa do Mundo é sem dúvida um grande desafio para o Brasil e este desafio vai muito além da construção de estádios e da performance da própria seleção (aliás, 2 aspectos em que as coisas também não vão bem). O país do futebol precisa mudar a postura do torcedor de futebol. Além dos nossos craques, nosso povo também será protagonista na Copa. Resta saber se estamos preparados para isso. Será que estamos?

 

Nota de Rodapé: Saudades do tempo em que se podia realizar rodadas duplas (2 jogos no mesmo dia em horários consecutivos) no futebol ….

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