Tá com pressa e passa por cima

Fábio Bonini

07 Julho 2011 | 09h39

Segunda feira, 8 da manhã, Juvenal desce a Avenida Rebouças a pé. O som de dezenas de motoboys buzinando entre os carros irrita quem está a pé e ainda mais quem está preso no congestionamento. Pior do que a buzina, é a atitude deste grupo de motoristas. Quem ousa mudar de faixa corre o risco de ter seu espelho retrovisor arrancado a chutes, por exemplo. O risco de colisão com os apressados motoqueiros também é grande e as conseqüências mais graves que um espelho quebrado. Juvenal somente observa. E aguarda o momento correto e seguro para atravessar a avenida.

Manobras arriscadas, pressão por prazos, trânsito. Nessa soma, o saldo é negativo para todos. Entre 2009 e 2010, 603 pessoas morreram em São Paulo em acidentes envolvendo motocicletas. Destas, 139 eram pedestres que foram atropelados por motos. Por dia, são 70 ocorrências de trânsito envolvendo motociclistas. Infelizmente estes números podem crescer ainda mais. Em 2003 7% das mortes no trânsito envolviam motoqueiros e, em 2009, este número saltou para 22%.

A legislação prevê multa e punições para condutas irregulares e/ou irresponsáveis e em casos graves, como acidente com vítimas (fatais ou não), o processo torna-se criminal e será investigado e julgado nessa instância. Mas a legislação não basta e a realidade nos atropela.

O crescimento de acidentes não está apenas na imprudência inegável dos motoqueiros mas também no número cada vez maior de motos circulando entre os carros. A frota de motocicletas já representa mais de 25% da frota total de veículos. Enquanto o número de carros cresceu 2,48% em 2010, o número de motos aumentou 6,34%.

Uma das soluções usadas pela Prefeitura de São Paulo foi proibir a circulação de motos em algumas vias, como a Avenida 23 de Maio e a pista expressa da Marginal Tietê. O presidente da Associação Brasileira de Motociclistas defende a criação de faixas exclusivas. A diminuição do limite de velocidade para motos, a renovação da CNH dos motociclistas com periodicidade menor também são propostas interessantes. Mas todas estas são medidas paliativas.

A conscientização de motociclistas sobre os riscos que eles geram com sua imprudência, principalmente para si, faz-se fundamental. Mas, além disso, é necessário entender que a “praga das motocicletas” tem sua origem no próprio congestionamento que ela ajuda a piorar. Com um volume crescente de carros em vias que não acompanham este crescimento e com um transporte público de qualidade duvidosa, a moto se tornou a opção mais rápida e acessível.

Uma pesquisa entre motociclistas mostra que 40% deles compraram a moto em substituição ao transporte público, e que apenas 16% fizeram a compra pensando em usar a moto como instrumento de trabalho. Investir em soluções imediatas para administrar melhor a guerra entre carros e motos é urgente. Este conflito faz cada vez mais vítimas, entre os próprios motoqueiros, os motoristas traumatizados e, como lembra Juvenal, os milhares de pedestres atropelados. Até quando?

Confissões de rodapé: O segredo do melhor suco de melancia com limão que eu já tomei na vida é saber a quantidade exata de gelo no liquidificador.

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