Se fosse fácil, já estava resolvido.

Fábio Bonini

17 de fevereiro de 2012 | 15h45

Um amigo fotógrafo é freqüentador da Rua Santa Efigênia, no centro de São Paulo. Lá encontra bons preços e raridades em equipamentos fotográficos. Dia desses cruzei com ele, que me disse: “Alguém precisa fazer alguma coisa em relação a esta cracolândia, agora, sempre que vou à Rua Santa Efigênia tem um bando fumando e comprando pedra na rua, para quem quiser ver”. Ele tem razão. Alguma coisa precisa ser feita porque o problema dos usuários de crack está longe de ter uma solução. 

 O que foi feito gerou muita polêmica: a Polícia Militar se fez presente na região da cracolândia, que há décadas era palco aberto de consumo e comércio de drogas e uma série de outros crimes relacionados (assaltos, violência, abuso de menores, exploração de prostituição, etc…). Com isso alguns traficantes foram presos, uma certa quantidade de droga foi apreendida, o local foi limpo literalmente – toneladas de lixo foram retirados da região – e os usuários se espalharam por outras ruas de São Paulo, caso da Santa Efigênia.

Esta medida está longe de solucionar o problema. Porém é inegável que parte da questão passa pela atuação policial: estamos falando de tráfico de drogas, de uma onda de crimes praticados por dependentes químicos, que precisam sim de tratamento e cuidados, mas não podem assaltar e agredir outros cidadãos. Um caso emblemático, em minha opinião, foi de fotógrafos que estavam trabalhando no local quando foram agredidos e ameaçados com faca por um grupo de mais de 20 pessoas.  Eles foram agredidos e tiveram seus equipamentos roubados, mas quando foram procurar a polícia souberam que os policiais que estão atuando na cracolândia não poderiam fazer nada. Porque o uso de força policial na região é considerado um desrespeito aos direitos humanos.  Esse é um caso de policia? Ou não?

Inegavelmente houve uma antecipação na ação policial na cracolândia. A PM chegou lá antes que houvesse uma resposta para o destino correto dos dependentes. O ideal seria que a presença da PM fosse simultânea à oferta de tratamento nos centros médicos que ficarão prontos em março, por exemplo. Seria perfeito que os usuários de crack fossem tratados como doentes que são e não como criminosos. Mas, infelizmente, muitas vezes os viciados também são criminosos. Melhor ainda seria que a atuação do poder público estadual fosse articulada com os poderes municipal e federal. Vale lembrar que uma das bandeiras levantadas pela candidata Dilma foi o combate ao crack e até então nada foi feito, a não ser o anúncio de um programa que se iniciará em junho apenas em 2 ou 3 capitais, exceto São Paulo.

Mas estamos falando do mundo real. Hoje, o que a PM pode fazer é impedir que estes cidadãos se fixem nas ruas, impeçam a passagem de outros pedestres, carros ou até mesmo ônibus. O trabalho dos policiais consiste em dispersar quem é usuário e tentar prender quem é traficante. E, quando ocorrerem crimes como assaltos ou agressões é necessário que a polícia proteja as vítimas e atue no combate ao crime, seja ele praticado por dependentes químicos ou não.

Uma vez que o governo de São Paulo iniciou uma operação na região da cracolândia o que mais se vê na imprensa são especialistas criticando essa medida e apontando soluções para o problema. Pois bem, se estas soluções são conhecidas por estes profissionais, por que não foram postas em prática, ou pelo menos apresentadas, antes? Este é um drama social que se estende há anos e me espanta ver que existe tanta gente com opinião formada que não se manifestava publicamente até então.

O fato é que não existe uma solução simples. E eu estaria sendo leviano se apresentasse qualquer fórmula para se resolver a questão. Este drama social e policial envolve uma série de especialistas, que devem somar esforços e não apenas apontar erros da atuação dos outros. É fácil criticar algo que já foi posto em prática e falar sobre o que seria o ideal. Quando se compara o que se está fazendo em São Paulo com o que é planejado para outros Estados, por exemplo, estamos comparando o mundo real com idéias, uma vez que ainda não foi colocado em prática em nenhuma cidade do Brasil o programa de combate ao crack do governo federal.

O próprio tratamento para o vicio não tem uma fórmula ou uma receita infalível. É um processo muito pessoal e dificílimo. Precisamos lembrar que estamos falando de seres humanos, cada um com uma personalidade única. Na cracolândia existem pessoas de diferentes classes sociais, formações culturais e histórico familiar. E diferentes graus de comprometimento físico e mental em relação ao uso da droga. Muito me impressiona ver profissionais respeitados dando receitas prontas para se resolver o drama de um contingente tão diverso de seres humanos.

Vejo como aspectos positivos da presença da policia militar na região da cracolândia a discussão gerada a respeito de um tema que há muito devia ser pauta de debate. O número de pessoas procurando ajuda aumentou e, levando-se em conta cada uma delas, acho este um dado positivo. E acredito que a atuação policial seja um dos braços do trabalho de combate ao crack. Muita coisa precisa ser melhorada, muita coisa precisa ser mudada. Mas era preciso começar. E agora é hora de somar esforços, não de se apontar falhas simplesmente. As cracolândias do Brasil, e São Paulo tem a pior delas, são palco de um drama humano absurdo. Não devem ser palcos de disputas políticas.

Gostaria muito de encerrar este texto com uma boa sugestão para se solucionar o problema mas o que posso dizer é que concordo com meu amigo: alguma coisa precisa ser feita. Por muita gente, aliás. Frente à complexidade do problema (social, policial, econômico…) só me resta dizer que a única convicção neste caso é de que entrevistas polêmicas, soluções simples e fórmulas mágicas não vão ajudar em nada. E estas pessoas precisam de ajuda e não de polêmica.

 

Confissões de rodapé: Feliz ano novo (rs) …

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