Quer saber?

Fábio Bonini

04 de abril de 2011 | 08h13

O acesso à informação nunca foi tão rápido, fácil e diversificado. E mesmo na comunicação “moderna”, um hábito antigo se faz presente: a mídia dá preferência ao que é negativo, pejorativo, trágico, errado. A mídia alimenta a sociedade com as informações que a sociedade devora.
Infelizmente, são hábitos “alimentares” pouco saudáveis e nutritivos. A boa notícia (sim, elas existem) é que com a quantidade de informação disponível na internet, cada um pode selecionar para si o que há de melhor.

Longe de defender que escândalos políticos não sejam denunciados, defendo que políticos que se destacam pelo trabalho sério tenham o mesmo espaço. Na última eleição o palhaço Tiririca e sua expressiva votação tiveram um espaço incrível na mídia. Mesmo depois de eleito, Tiririca foi pauta obrigatória com seu suposto analfabetismo, seu voto “errado” sobre o valor do salário mínimo, seu primeiro dia de trabalho. Não podemos deixar de lado o fato de um comediante ter recebido a maior votação para Deputado Federal do país. Devemos inclusive pensar bem no que levou o brasileiro a escolher um palhaço, em detrimento de tantos políticos.

Mas o fato é que outros deputados também merecem destaque. José Antônio Reguffe (PDT-DF) foi proporcionalmente o mais bem votado do país com 18,95% dos votos válidos do DF. Estreou na câmara em grande estilo: abriu mão dos 14º e 15º salários que os parlamentares recebem, de toda verba indenizatória, de toda cota de passagens aéreas e do auxílio-moradia, tudo em caráter irrevogável. Reduziu sua verba de gabinete, o número de assessores e a cota interna do gabinete em mais de 80%.
Em quatro anos de mandato, o deputado vai economizar mais de R$ 2,3 milhões dos cofres públicos. “Esses gastos excessivos são um desrespeito ao contribuinte”, explicou Reguffe em discurso no plenário. Se os outros 512 deputados pensassem assim, a economia aos cofres públicos seria superior a R$ 1,2 bilhão. Quem não gostaria de ler esta notícia?

Talvez esta seja a pergunta fundamental: Quem gostaria de ler boas notícias? Se a resposta parece óbvia – todos – a realidade é outra. Como exemplo, podemos citar o youtube, onde o internauta escolhe o vídeo ao qual quer assistir. O site é responsável por “fabricar” celebridades na internet. A última foi um garoto australiano, que reage a uma agressão. Todos sabem quem é Casey Heynes, ou pelo menos já viram o vídeo do “gordinho” que se tornou ídolo por reagir ao bullying escolar. O vídeo correu o mundo, gerou matérias, entrevistas com o garoto e sua família e até games.

No mesmo youtube, encontramos diversos vídeos sobre Ryan Hreljac. O garoto canadense que com 6 anos descobriu que crianças morriam de sede no continente africano. Com 8 anos, Ryan conseguiu arrecadar na comunidade onde vivia os 2 mil dólares necessários à perfuração de um poço de água numa vila ao norte de Uganda. Aos 19 anos, ele tem sua própria fundação e já entregou mais de 400 poços de água que fornecem água para cerca de 500 mil pessoas. Uma história verdadeiramente heróica, mas que foi vista por menos de 1/10 das pessoas que vibraram com Casey.

Possivelmente as pessoas não estejam acostumadas a buscar boas notícias, mas o mundo está cheio de bons profissionais, ativistas com histórias incríveis, exemplos de solidariedade, inteligência, feitos extraordinários. Quem recebe informações positivas tem uma perspectiva mais estimulante e tende a ter atitudes coerentes com isso.

Os políticos normalmente tornam-se notícia por desvios de conduta. Divulgar os feitos positivos dos homens públicos pode ensinar à população que existe essa possibilidade dentro da política. Se boas condutas fossem melhor divulgadas – e pesquisadas pelos eleitores – talvez também fosse outro o desenho do nosso congresso. Quem tem coragem para atirar a primeira rosa?

Confissões de rodapé: Leio meu jornal na padaria. Às vezes tenho a sensação de que faria bem também a alguns jornalistas frequentar mais padarias pela manhã.

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