Publicidade ou privacidade. Há como fugir do Grande Irmão?

Fábio Bonini

24 de maio de 2011 | 02h58

Abro minha caixa de emails e o que encontro? Mais de 35 convites para aderir às chamadas redes sociais.  No mundo globalizado a enxurrada diária de informações virtuais afoga mesmo o usuário mais sedento de notícias. Os fatos e as pessoas ganham e perdem notoriedade na velocidade de um clique. “Me manda um e-mail”, “me adiciona no seu Facebook”, “me convida para o Orkut?”

Nesse tsunami midiático parece impossível resistir à exposição, ser conhecido, lembrado e reconhecido por amigos, parentes, ex-colegas, pretendentes, clientes, empregadores, e até mesmo pelos milhões de desocupados que simplesmente navegam na internet apenas para passar o tempo.

De outro lado, o Estado, tal qual o Grande Irmão criado por George Orwell em sua obra “1984”, usa da tecnologia para intensificar cada vez mais os meios de controle e de monitoramento sobre os cidadãos, sempre sob a alegação da necessidade de ampliar a proteção social. Exemplo: Segundo um boletim emitido pela respeitada Scotland Yard (a Polícia Metropolitana de Londres ou simplesmente Met), no ano de 2010, graças a os sistemas de CFTV (Circuito Fechado de Televisão), foram identificados 2512 (dois mil quinhentos e doze) “procurados”; mais especificamente: 574 suspeitos de roubos, 427 de arrombamentos, 199 de homicídios ou lesões corporais e 23 de delitos sexuais.

A equipe de vídeo-identificação da Yard afirmou que esse resultado é 25% superior ao do ano anterior; ou seja: O sistema está funcionando bem e certamente será ampliado. Ao contrário das tecnologias mais tradicionais de identificação de suspeitos como a papiloscopia e a moderna identificação de DNA, as imagens colocam o suspeito no cenário e no momento da ação criminosa, aumentando a eficiência do sistema punitivo.

É praticamente impossível escapar do Grande Irmão londrino: O sistema de CFTV de lá é totalmente integrado, ou seja, a Yard tem câmeras próprias mas se vale das imagens dos demais sistemas públicos e privados como os do departamento de trânsito e os das lojas e condomínios, que podem ser acessados diretamente pelos policiais, a qualquer tempo. São, portanto, centenas de milhares de olhos – e ouvidos, em alguns casos-, que vasculham permanentemente todos os momentos da vida londrina, pública e privada. Detalhe: Trata-se de uma adesão da população ao modelo, não de coação do governo. Os atentados terroristas sem dúvida colocaram a melhoria da eficiência do sistema na ordem do dia, e a população londrina, que no início questionava veementemente a opção pelo monitoramento compulsório, capitulou e aceitou o fardo da vigilância obrigatória. O Inspetor-Chefe do departamento responsável pela captura e análise das imagens garantiu que Met faz uso apropriado desses sistemas, que seus comandados obedecem a protocolos rigorosos e são duramente fiscalizados, de modo a eliminar o risco de interferir na privacidade e no direito das pessoas de bem levarem suas vidas normalmente. Será?

O inglês George Orwell, que escreveu o livro ao tempo do final da 2ª Guerra Mundial, baseou a eficiência do sistema policial de Oceania (o Estado controlado onde se passa a história) não somente na força coercitiva do Estado, mas, sobretudo na aceitação das suas premissas pelos cidadãos que, desse modo, fariam de tudo para que ele funcionasse perfeitamente. Nesse sentido, o sistema londrino, assim como outros mundo afora, conta com um website para que o público possa ver as imagens dos procurados e, caso os identifiquem, informem seu paradeiro às autoridades por meio de uma ligação anônima, algo semelhante ao Disque-Denúncia que temos no Brasil.

Seria esse o custo de viver plenamente a democracia das relações humanas, de garantir a livre circulação de pessoas e informações? Mais liberdade e menos segurança, ou mais segurança à custa de maior controle da liberdade? Todos juntos na luta contra o crime, ou deixe que o Estado resolva mais este problema?

Confissões de rodapé: Entendo pouco de cinema e menos ainda de cinema sul-coreano. Assisti Poesia há mais de um mês e o que posso dizer é que desde então tem um silêncio no meu peito.

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