Praticando o Esporte da Paixão

Fábio Bonini

10 de abril de 2011 | 07h17

Escrevo este post cutucado por Natasha, jogadora de rugby. Ela está sem o Bolsa Atleta, programa da Secretaria Nacional de Esportes de Alto Rendimento que ajuda financeiramente atletas nacionais. O benefício não está sendo pago em 2011. O Ministério afirma que está dando prioridade aos esportes olímpicos e o rugby, apesar de fazer parte do programa olímpico brasileiro, não está entre os contemplados.

Diz Natasha que tem cutucado também os amigos jornalistas para abordar o tema mas a imprensa esportiva brasileira ainda dedica 90% do seu espaço e tempo ao futebol masculino, o esporte dos milhões – milhões em salário e publicidade para os jogadores. Milhões aos clubes. Às TVs e a CBF então…

À Confederação Brasileira de Rugby foi destinado aproximadamente R$ 1 milhão para a seleção masculina, aprovado na lei de incentivo junto ao Ministério do Esporte. O valor foi comemorado como uma grande vitória mas na verdade é irrisório quando  comparado aos valores que são investidos em futebol (direta ou indiretamente). O salário de alguns jogadores de futebol – e nem precisa ser de nível de seleção –  é equivalente ao que a seleção brasileira de rugby conseguiu como verba para um ano inteiro.

Disputado em mais de 120 países, o rugby também movimenta milhões: a audiência da última Copa do Mundo superou 4 bilhões de pessoas. A Copa do Mundo de Rugby é o terceiro maior evento esportivo do mundo. O rugby é o esporte coletivo que mais cresce em número de praticantes e, em 2010, voltou a ser um esporte olímpico. Curioso que tenha chegado ao Brasil junto com o futebol, mas que ainda receba investimentos infinitamente menores… Enquanto isso, o Avaí, time do coração do maior tenista brasileiro de todos os tempos, Guga Kuerten, mas que  oscila entre a primeira e a segunda divisão do futebol brasileiro, anunciou um investimento de cerca R$ 35 milhões no futebol profissional até o final da temporada.

O mesmo não acontece com outras seleções ou atletas que representam o Brasil. O rugby, por exemplo, fechou contratos de patrocínio com a Topper e o Bradesco. Os valores não foram divulgados mas certamente estão bem abaixo dos R$ 35 milhões anunciados pelo Avaí.

O valor recebido pelas seleções e Rugby não é suficiente para que os atletas se dediquem exclusivamente ao esporte – como deveria ser. A maioria trabalha e estuda, além de treinar. A capitã da seleção feminina, por exemplo, acorda às 5h30 para fazer musculação e treina após o trabalho de professora. Outras atletas trabalham durante o dia, estudam à noite e treinam de madrugada.

Aliás, por justiça, ressalto que a Seleção Brasileira Feminina de Rugby é 7 vezes campeã Sulamericana e 10ª colocada no ranking mundial do International Rugby Board – IRB, posição que as coloca à frente da nossa seleção masculina…

Já para o futebol, a prioridade é tanta que a página do Ministério dos Esportes na internet tem uma seção exclusiva para o esporte “nacional” quando a verdade é que existem outros esportes nacionais, praticados no Brasil e por brasileiros.

O rugby é só um exemplo. Assim como tantos outros esportes, que recebem investimentos inferiores aos salários de um time de primeira divisão de futebol. O governo federal poderia atuar no vácuo financeiro deixado pelo monopólio esportivo do futebol. Quantas Daiane dos Santos estão abrindo mão de treinar para trabalhar? Quantos César Cielos deixaram de nadar porque não podem pagar a mensalidade de um clube ou academia? Quantos esportes estão esperando para também se tornarem esportes “nacionais”?

Confissões de rodapé:Não sei extamente porque as mulheres pensam que somos capazes de compreender os diferentes tons de rosa do esmalte que elas usam nas unhas do pé.

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