O terror sem data marcada

Fábio Bonini

23 de setembro de 2011 | 19h13

No dia 11 de setembro de 2011, o Estado de S. Paulo trazia na capa manchete sobre os 10 anos do atentado terrorista às torres gêmeas, “Cidade inaugura memorial às vítimas…”. E, abrindo a edição daquele domingo, deparei-me com muitas outras vítimas, em situações que não foram marcadas por um dia fatídico, mas que se já se estendem pelos mesmos 10 anos da tragédia de Nova Iorque e estão longe de terminar a contagem dos mortos.

Uma reportagem especial falava sobre a fome na Somália, “terrorismo e fome” era o título. Para resumir: extremistas do Al-Shabaab ainda dominam grande parte da Somália e agora infiltram seus radicais no maior campo de refugiados do mundo, em Dadaab, no Quênia. Dez anos depois, a guerra contra o terror (ou do terror) segue monstruosa e se faz presente para muito além da big apple.

Longe de qualquer centro financeiro, o cenário é um campo refugiados na África. Ali, onde cerca de 440 mil pessoas depositam suas últimas esperanças de vida – no sentido mais literal possível – continua o conflito entre o Al-Qaeda, que financia o Al-Shabaab, e o governo americano, que financia, juntamente com alguns países europeus, o governo central que assumiu o poder. Cada um com suas justificativas, os líderes deste conflito são indiferentes a apelos humanitários.

Segundo a reportagem, em agosto, três homens vestidos com burcas entraram no principal mercado do local e abriram fogo contra um líder religioso que, segundo a ONU, não aceitou a determinação do Al-Shabaab de recrutar jovens para a milícia entre os refugiados. E, se é odioso o recrutamento de pessoas que estão buscando ajuda humanitária pelos extremistas, é igualmente inaceitável que ele aconteça por quem está lutando contra organizações terroristas. Mas, segundo a Human Rights Watch, o governo queniano também vem buscando soldados entre os jovens de Dadaab.

De todas as fotos que vi no jornal daquele dia, entre elas as de Edward Keating que fotografou os escombros do WTC, a que mais impressionou foi a dos somalis rezando no campo de refugiados. Uma multidão que se estende ao horizonte. Vítimas que ainda vivem. São 440 mil ameaçados pela fome, pela seca e, além de tudo, pelo terrorismo e pela guerra que usa o extremismo como justificativa – e que se iguala a ele, em intolerância e violência.

As vítimas do atentado de 2001 merecem seu memorial e justiça. Nova Iorque e o resto do mundo têm que chorar pelos mortos e lembrar, sempre. A memória é uma arma contra a repetição de barbaridades. A cena dos aviões contra os prédios e toda a tragédia que se seguiu é inesquecível (e inaceitável). No entanto, neste 11 de setembro de 2011, o que mais me assombrou foi ver os que vivem no terror, ainda e depois de 10 anos. Muito se fala na guerra contra os terroristas, mas me pergunto quem são as verdadeiras vítimas desta empreitada. O terrorismo ainda está vivo. Quem vai pagar o preço desta guerra e quem vai lucrar com ela?

 

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