O ir e vir da liberdade de expressão

Fábio Bonini

28 de junho de 2011 | 22h33

Conheci Nayara num café na Avenida Paulista. Todos os dias ela fez o ir e vir entre a Avenida Paulista e a Estrada do Guarapiranga; mora na antiga Avenida Robert Kennedy, hoje Avenida Atlântica. Nayara vai em vem de ônibus todos os dias e aproveita as 3 horas do seu bilhete único e pega 2 ônibus meio cheios pelo mesmo preço de um superlotado. Nos dias de manifestação na Paulista, demora mais. “A última que eu me lembro foi justo um protesto contra o aumento da tarifa do ônibus. Nesse dia paguei duas passagens”. E demorou mais do que 3 horas.

O protesto contra o aumento da passagem terminou em quebra-quebra. A confusão começou na rua, ganhou o centro e entrou na estação Anhangabaú do metrô. Lâmpadas foram quebradas, manifestantes entraram em confronto com seguranças ao tentar pular as catracas, ferindo 8 deles. Nayara e os agentes de segurança feridos continuam pagando R$ 3,00 pela passagem de ônibus. Os manifestantes também.

A liberdade de expressão pertence à restrita gama dos direitos e liberdades fundamentais, todos igualmente importantes e somente presentes em países democratas. Entre estes direitos está o direito de ir e vir. Em agosto de 2010, a Avenida Paulista foi palco de duas manifestações: 300 médicos residentes ocuparam uma faixa no sentido centro e 200 manifestantes de uma Central Sindical duas faixas no sentido bairro. Nesse dia, e em tantos outros, a liberdade de expressão de poucas centenas se sobrepôs ao direito de ir e vir de milhões.

Vale lembrar que na região da Avenida Paulista estão concentrados hospitais, consultórios, clínicas e centros de saúde. Enquanto médicos (ou líderes sindicais, estudantes, ciclistas e todos os que têm motivos legítimos para protestar) fazem passeata, sirenes pedem passagem para pessoas doentes. Além da saúde, a cultura também entra na roda das manifestações. O MASP, Museu de Arte de São Paulo, é usado por professores e seus líderes sindicais como ponto partida e concentração de protestos. Nos dias em que os professores se encontram, o acesso ao museu também fica prejudicado.

Médicos que atrapalham a passagem de ambulâncias; professores que prejudicam a entrada ao museu; ciclistas nus que prejudicam o tráfego justamente ao pedir para transitar com mais liberdade e segurança; estudantes que pedem passe livre nos ônibus e impedem a passagem destes… Não faltam exemplos de como a liberdade de protestar de alguns interfere diretamente na liberdade de ir e vir de tantos.

Faltam modelos, e exemplos, de manifestações eficientes, inteligentes, cujo resultado seja medido pelo mérito do pleito ou da manifestação, e não pelo quanto turbou a vida da cidade. Enquanto o sucesso de um protesto for medido pelo número de pessoas na rua e pelos quilômetros de congestionamento que causa, a interferência na vida da população vai se dar pelo desrespeito e não pelas conquistas. Quantas pessoas mais iremos importunar até perceber isso?

Confissões de rodapé:Só quem foi Nerd aos 15 e continua aos 40 sabe o que é tomar pito de colega por erro de digitação na happy hour.

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