Não tenho o dom de comprar…

Fábio Bonini

31 Outubro 2011 | 13h42

Fim de semana de sol, passeando pela Av. Paulista, conversa ouvida na feirinha de artesanato na calçada em frente ao Parque Trianon: “Pô, quadro legal, o cara pinta muito, tem o dom!”; ao que o artista, envaidecido, responde: “Eu tenho o dom de pintar, mas você tem o dom de apreciar, que é mais importante…”. E o rapaz retrucou, de pronto: “É… Mas o que eu não tenho, mesmo, é o dom de comprar. Falta ‘bala’…”. O colega do moço, que até então estava quieto, concluiu a conversa: “Você pode ter o dom de pintar e ele pode ter o dom de apreciar, mas o dom mais importante é o dom de comprar!”. Fim de papo, cada um seguiu o seu caminho.

Naquele momento me veio à cabeça uma entrevista do sociólogo italiano Domenico de Masi, pensador que enaltece a busca da felicidade como objetivo maior da vida e a valorização do tempo livre como elemento-chave na conquista dessa felicidade. Entre outras coisas, ele afirma que devemos aprender a apreciar a livremente a beleza, independente dos chamados “valores de mercado”.  Diz ele, ainda, que a escola deve educar para aprendermos a valorizar a arte e o tempo livre, e não para nos tornarmos autômatos, seres insípidos e insensíveis que não criam identidade própria para além daquela profissional.

O ócio bem aproveitado é aquele que gera a criatividade, que transforma e move o mundo. Autômatos de carne e osso podem até se tornar operários eficientíssimos, altamente valorizados no mercado, mas que pouco ou nada contribuem para a evolução social. A beleza é o tempero da vida, e saber apreciá-la é um dom preciosíssimo, cada vez mais raro nesta nossa sociedade consumista. Não saber o que fazer com o ócio, para De Masi, gera oportunidades para o crime, para o as drogas, para a depressão. Aposentar-se vira um fardo, e as férias, um calvário. Basicamente é uma releitura do dito popular: “Cabeça vazia é oficina do Diabo”.

Para mim é cristalino que o trabalho artístico tem valor e aquele que consegue corporificar a beleza num quadro, escultura, foto ou no que for, merece ser recompensado, também financeiramente. Leonardo da Vinci pintou a Mona Lisa para adornar o banheiro de um rico mercador; Michelangelo pintou a Capela Sistina e esculpiu Davi e Moisés a peso de ouro. A arte sempre foi objeto de desejo na história da humanidade, e, como tal, foi precificada de diversas formas. Trata-se da tal “Lei do Mercado”, que, grosseiramente, estabelece: “quem pode, compra; quem não pode, lamenta”. Felizmente, muita gente “poderosa” entende que a beleza existe para ser apreciada e patrocina artistas para que produzam obras para todos, não somente para si.

De Masi declarou que a beleza é como o sol, o ar, a vida: não pode ser subordinada à riqueza, tem de ser acessível a todos, pois se trata de um patrimônio da humanidade, e, portanto, é inestimável. Diferentemente daquele bilionário japonês, que, numa das transações mais caras da história, arrematou uma das versões do Retrato do Dr. Gachet, de Van Gogh, e escreveu em seu testamento que gostaria de ser cremado com ele. Com sua morte, em 1996, deu-se uma batalha jurídica internacional que acabou impedindo o crime de lesa-humanidade mas, até hoje, o paradeiro do quadro é desconhecido.

Pelo menos, a outra versão do mesmo retrato pode ser apreciada livremente no Museu D’Orsay, em Paris; mas aí, essa é só para quem tem o dom de ir até lá. Você tem?

 

Confissões de rodapé: Quem tudo quer, nada tem ….

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