Mais difícil ser sede do que Hexacampeão.

Fábio Bonini

02 de janeiro de 2012 | 16h33

Doze cidades brasileiras foram escolhidas para sediar a Copa do Mundo de 2014: Belo Horizonte, Brasília, Cuiabá, Curitiba, Fortaleza, Manaus, Natal, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo vão receber pessoas do mundo inteiro. Durante todo o período da Copa propriamente dita são esperados cerca de 600 mil turistas nas cidades onde os jogos acontecerão e, no ano de 2014, o Brasil deverá bater o recorde de visitantes e chegar a impressionante marca dos 7,2 milhões.

 E quando se fala em preparar o país para a Copa, a primeira imagem que temos são as obras faraônicas, reformas e construções de estádios com cifras que chegam aos bilhões de reais. Mas receber a Copa do Mundo e toda essa gente envolve muito mais que estádios de futebol. No plano da infraestrutura podemos citar os aeroportos, o transporte urbano e as vias de acesso aos estádios, para falar do fundamental. Mas, as cidades e os cidadãos brasileiros estão prontos para receber 7,2 milhões de pessoas? E, quando digo receber, quero dizer acolher não apenas aceitar a presença.

Voltando da minha última viagem vi a cena absurda de um funcionário da imigração brasileira se descontrolar com um turista chinês que não falava nosso idioma. Quanto maior a dificuldade de comunicação, mais alto o funcionário gritava – como se o problema fosse auditivo e não a língua. Pois bem, um projeto da Lei Geral da Copa de 2014 vai facilitar a entrada de estrangeiros no país e, até 31 de dezembro de 2014, serão concedidos, sem qualquer restrição quanto à nacionalidade, raça ou credo, vistos de entrada para todos que possuam ingressos ou estejam envolvidos no evento (funcionários da Fifa, imprensa, etc).

E como essas pessoas vão fazer na imigração?  Depois de ter sua entrada facilitada pela “legislação da Copa”, como vai ser a chegada deste cidadão ao Brasil? Nós, brasileiros, muitas vezes temos problemas em desembarcar, pegar a bagagem, sair do aeroporto e chegar em casa depois de uma viagem. Trânsito, filas, esperas por táxis, linhas de ônibus inexistentes entre o Aeroporto e a cidade, confusões na hora de encontrar as malas, falta de informação, falta de acessibilidade… Já imaginaram esses mesmos problemas, enfrentados por milhões de pessoas que não falam português? Quem vai ajudar toda essa gente?

Na ausência de um número significativo de brasileiros que dominem o idioma inglês, um consolo seriam cidades bem sinalizadas para que os estrangeiros pudessem se deslocar sozinhos. Mas, um em cada quatro turistas que visitam o Brasil critica a sinalização das cidades brasileiras – dados de estudo realizado pelo Ministério do Turismo e pela Fipe. Em São Paulo, este número é de 32,7%. Sistemas multilíngües são uma medida simples e muito pouco usada. Assim como guias ou mapas em outros idiomas distribuídos gratuitamente em pontos públicos e privados de visitação. O metrô de São Paulo, por exemplo, tem um ótimo mapa, mas apenas em português.

Outra necessidade imperativa é a mudança de mentalidade de alguns brasileiros. Receber um estrangeiro em seu país deveria ser visto por todos como ter uma visita na própria casa. Mais do que isso, essa “visita” além de tudo ajuda no orçamento doméstico pois traz renda. Mas, enquanto alguns sentem orgulho de mostrar as belezas do nosso país para quem vem de fora, outros se aproveitam dessa situação para “faturar”. Taxistas que rodam sem necessidade ao notarem o sotaque do passageiro, vendedores que cobram mais caro de quem tem euros e dólares, funcionários público impacientes e intolerantes, além de todos os outros problemas que atingem inclusive a nós, brasileiros que vivemos aqui … Enfim, depois de voltar de viagem e ter sido muito bem recebido nos países por onde andei, coloquei-me no lugar do chinês na imigração brasileira e fiquei preocupado.

Confissões de rodapé: Bom ano novo, apesar dos desencantos ….

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