Elogio ao mau gosto, uma nova tendência?

Fábio Bonini

22 de agosto de 2011 | 11h32

Acabo de chegar do banco onde ouvi uma péssima piada… A crítica bem-humorada e a profusão de piadas sobre os costumes estão entre as características nacionais mais cultivadas. A piada é uma verdadeira instituição brasileira, não havendo assunto nem pessoa imune aos comentários jocosos, às observações agudas e cáusticas que surgem quase espontaneamente nas rodas de amigos. Políticos de qualquer matiz, padres, rabinos, pais de santo, professores, alunos, times de futebol, artistas de novela, joãozinhos, mariazinhas, calvos, narigudos, mineiros, caipiras, gaúchos, cariocas, … Qualquer um pode virar, e no Brasil, vira, motivo de piada nos bares, nas esquinas, nos cafés das empresas, nos velórios.

Recentemente vem ganhando espaço uma forma de gozação mais agressiva, que já há algum tempo não se via, a chacota escrachada e de baixo calão baseada quase exclusivamente nas características físicas, culturais e étnicas das pessoas. Humor de baixa qualidade, covarde como todo preconceito. É o humor à custa do insulto. Tolerar a intolerância travestida de piada é uma das contradições da Democracia moderna, pois se trata de garantir as liberdades de pensamento e de expressão que representam a pedra angular da sociedade verdadeiramente livre e democrática. Deixar que o governo decida o que é e o que não é adequado produzir em termos culturais é o primeiro passo rumo à tirania. Não cabe ao Estado regulamentar o humor nem definir critérios do que pode e do que não pode virar anedota, editando, por exemplo, uma tal cartilha do “politicamente correto”, a quintessência do ridículo. Ridendo castigat mores, pelo humor se modificam os costumes, já disse Molière, que nos palcos da Europa fazia a corte e a burguesia rirem de si mesmos, gostosamente.

Nas últimas eleições, sob a justificativa risível de “preservar a seriedade do pleito eleitoral, proibindo a sabotagem e os prejuízos à imagem dos candidatos durante o processo eleitoral”, o TSE quis censurar a produção e divulgação de tirinhas, cartuns, piadas e comentários sobre candidatos e candidaturas. Censurar os políticos seria mais eficiente, já que são eles os autores e protagonistas dos gracejos mais infames e que nos fazem chorar na vida real.

Ganharam a companhia de um palhaço – de verdade. Será que agora aprendem a diferença entre a graça e o deboche?

Confissões de Rodapé: Quando será que aboliremos o uso de uniforme europeu (terno e gravata) no Brasil?

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