Eles não se responsabilizam… De quem é mesmo a responsabilidade?

Fábio Bonini

14 Outubro 2011 | 06h57

Os paulistanos convivem resignados com uma onda de crimes que acontece regularmente, nos mesmos locais, em horários variados (e constantes). Crimes praticados por pessoas que são parte do cenário da cidade de São Paulo e estão por toda parte – nas ruas onde existem delegacias, inclusive. Ficam lado a lado com policiais e faturam alto com a impunidade. Os flanelinhas, estas pessoas que cobram para que outras pessoas estacionem nas ruas públicas, das quais tomam posse e tiram vantagem.

A cena de um “flanelinha” cobrando de um cidadão que quer estacionar seu carro em uma região movimentada se tornou normal, comum, aceita. Mas é crime: extorsão. Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, e com o intuito de obter para si ou para outrem indevida vantagem econômica, a fazer, tolerar que se faça ou deixar fazer alguma coisa. A definição do crime de extorsão não está muito distante da situação que tanta gente enfrenta. Ou paga, ou o flanelinha que vai ficar na rua onde você estaciona o carro “não se responsabiliza pelo que vai acontecer”. O que vai acontecer é justamente o que o próprio ou um comparsa vão fazer com o seu carro. A situação é essa: pagamos para que as pessoas não furtem ou danifiquem nossos veículos, em via pública.

No show da banda U2 e na disputa final da Copa Libertadores, por exemplo, as pessoas pagavam R$ 50,00 para não terem seus veículos furtados ou quebrados ou danificados. Os flanelinhas lotearam as ruas por onde circulavam centenas de policiais, que não faziam absolutamente nada quanto à isso. À vista de todos os policiais os motoristas são extorquidos, num silêncio cúmplice entre quem cobra, quem paga e quem aceita essa situação absurda.

Quer absurdo maior? Na Rua Marques de Paranaguá há uma delegacia e, no entorno, pelo menos 3 flanelinhas que, há anos, recebem dinheiro após tomarem posse da via pública, se declarando responsáveis pela segurança do local. Na delegacia de Perdizes, a mesma situação. Os “donos da rua”, responsáveis pela segurança de quem estaciona perto da delegacia, esfregam na cara dos policiais e dos cidadãos a sua autoridade paralela. E recebem por isso.

O poder público combate a pirataria, os vendedores ambulantes, as passeatas irregulares e tantas outras irregularidades. Mas assiste calado à esta situação que é parte do dia-a-dia da cidade, mas nem por isso deixa de ser completamente descabida. Uma ação contra esta prática tão banal quanto inaceitável seria um exemplo incrível de consciência civil, de resgate da cidadania dos paulistanos que pagam para não serem lesados por criminosos. Um resgate da via pública, por parte do poder público – será que é pedir demais?

 

Confissões de rodapé: Constato: Pode-se ser cavalheiro sem jogar tênis, mas não se pode jogar tênis sem ser cavalheiro.

 

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