E eu com isso?

Fábio Bonini

23 de setembro de 2011 | 19h23

Os resultados dos exames sobre a morte de Amy Winehouse foram inconclusivos, não se pode afirmar o que matou Amy, aos 27 anos. Mas pode-se dizer que, em vida, ela sofreu muito pela dependência de drogas e álcool. Agora, não se pode fazer mais nada por ela. Mas, depois de perder a filha, o pai declarou que vai criar uma fundação com o nome de Amy para ajudar os dependentes de álcool e drogas a combater o vício. “Se a pessoa não tem como pagar uma clínica privada, a espera pode chegar a dois anos para quem precisa de ajuda”, explicou.

Com esta espera de 2 anos, o sistema público de saúde para quem é dependente químico é um convite à tragédia, mesmo num país como a Inglaterra, referência de “primeiro mundo”. Mitch, pai de Amy, tem alguma responsabilidade neste cenário? Nenhuma. Mas vai fazer a diferença na vida de muita gente com a sua iniciativa. Num momento de dor extrema, decidiu fazer pelos outros, ao invés de culpar o mundo.

No Brasil, uma situação bem diferente e uma atitude igualmente empreendedora. Paiva Junior, jornalista, pai de Giovani e Samanta, enfrentou o diagnóstico de autismo dado ao filho com um pequeno luto e um grande gesto. Ao pesquisar a doença, descobriu que não existiam fontes de informação sobre autismo para os brasileiros, dentre os quais estão cerca de 2 milhões de autistas. Paiva, jornalista que é, criou a revista Autismo: publicação de distribuição gratuita com conteúdo riquíssimo que muito tem ajudado aqueles que, como ele, estavam em busca de informação e opções de tratamento.

No Brasil, não há políticas de saúde pública para o tratamento e diagnóstico do autismo – e o diagnóstico precoce é importantíssimo. Paiva e os outros pais que trabalham pela publicação e distribuição gratuita da revista poderiam passar anos reclamando e apontando essa falha grave. Sim, eles também cobram ações do poder público. Mas antes de tudo, criaram a primeira revista sobre a doença em toda a América Latina e única publicação sobre o tema em língua portuguesa do mundo. Não era responsabilidade deles, mas era o que eles poderiam fazer. E fizeram.

E, se ao se deparar com uma situação difícil, as pessoas parassem de procurar culpados e se perguntassem: o que eu posso fazer? Não uma pergunta retórica, destas que servem como um atestado de vítima, mas como um questionamento real, possível. O que podemos fazer? Na verdade muito mais do que imaginamos. Mesmo nos casos em que a responsabilidade não é nossa (e, talvez, principalmente nesses casos), sempre podemos fazer alguma coisa – por nós e pelos outros. Todo mundo tem problemas. O que eu posso fazer? E você?

Confissões de rodapé: Acho engraçado empresários utilizarem o campus  da USP para correr e os estudantes usarem a Paulista para protestar ….

 

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