Como é que vai ficar?

Fábio Bonini

17 Outubro 2011 | 13h55

Quem já viu de perto a dura realidade da dependência química sabe como é difícil a luta contra o vício. Largar as drogas exige muita força de vontade e envolve o apoio de quem está próximo, principalmente quando se trata de crianças e adolescentes. E quando não há ninguém próximo a não ser outros viciados e traficantes? Quem pode ajudar? Um dependente químico é capaz de avaliar sua situação, buscar tratamento e curar-se sozinho? Mais do que isso, uma pessoa sob o efeito de “crack” tem consciência de seus atos a ponto de pode ser responsável?A prefeitura do Rio de Janeiro decidiu responder estas perguntas com uma ação polêmica. Desde Maio, determinou a internação obrigatória de crianças encontradas e apreendidas em “cracolândias”. Hoje, meninos e meninas que antes estavam nas ruas estão em abrigos. Segundo reportagem do Estado, esses abrigos precisam melhorar. O atendimento psiquiátrico é menos frequente do que deveria, a estrutura física precisa mudar, faltam médicos e psicólogos. Ou seja, os abrigos estão longe do que deveriam ser.

As secretarias de Educação e Saúde estão atuando no cuidado de cerca de 10% das crianças internadas e as demais ficam em abrigos administrados por ONGs. Em todos os abrigos, a situação das crianças é triste, em parte pela falta de condições de atendimento, em parte pela própria situação dos meninos e meninas – muitos são de famílias que vivem há anos nas ruas ou são órfãos. Em entrevista ao jornal, o secretário de Assistência Social do Rio, assume um discurso que há anos frequenta o jargão dos policiais: “Estamos trocando pneu com o carro em movimento. No Brasil não há expertise para tratar usuários de crack.”

O que existe no Brasil é um problema social e de saúde pública muito sério: usuários de crack que, muitas vezes, estão largados à própria sorte. São doentes que vagam pelas ruas como zumbis, colocando em risco a própria vida e cidadãos que cruzam seus caminhos. Isso faz com que a expertise no tratamento seja urgente. Especialistas em tratar dependência química precisam aprender rápido a cuidar destas pessoas. E o poder público precisa encarar de frente a realidade, escancarada nas ruas durante dias e noites em qualquer grande cidade do Brasil.

São Paulo também tem sua “cracolândia”. Todas as grandes cidades brasileiras já possuem a sua. Infelizmente, o uso indiscriminado de crack não está restrito à uma região. Claro que muitas vezes estes usuários são recolhidos pela polícia quando cometem algum crime. E aí já são tratados como criminosos e não como doentes.

Talvez o exemplo carioca possa ser seguido por aqui. Maria Thereza Aquino dirige o Núcleo de Estudos e Pesquisas em Atenção ao Uso de Drogas, no Rio de Janeiro há 25 anos. Ela foi entrevistada pelo Estado e afirmou que nos abrigos “deve haver erros, mas as crianças certamente estão muito melhor do que nas ruas”. Alguém duvida?

 

Confissões de rodapé: Primeiro exame de próstata agendado, espero que a consequência seja muito melhor que a causa.