A base é o – único – começo.

Fábio Bonini

06 de agosto de 2011 | 22h54

Natália, sobrinha de uma conhecida, anda feliz com seu resultado no SARESP. Assim como ela, todos os alunos da rede estadual de ensino de São Paulo passam por essa avaliação anualmente. O Saresp é o Sistema de Avaliação do Rendimento Escolar do Estado de São Paulo. Os resultados do ano passado indicaram uma piora nas notas de estudantes da 9ª série do ensino Fundamental e da 3ª série do Ensino Médio, em comparação com 2009. A queda no resultado do Saresp trouxe também uma diminuição do Índice de Desenvolvimento da Educação de São Paulo (Idesp), que usa as notas do Saresp e os dados de aprovação, reprovação e abandono escolar em sua análise.

Entre muitos números, médias e considerações, um dado me chamou a atenção: apenas 0,3% dos estudantes da 3ª série do ensino médio apresentaram conhecimentos avançados em matemática e 0,6% em língua portuguesa. A 3ª série do ensino médio é o último ano em que os estudantes estão na escola, depois vem o vestibular e, com sorte, a faculdade. Desta avaliação, podemos concluir que menos de 1% dos alunos que terminam os estudos em escolas estaduais em São Paulo, tem conhecimento avançado em matemática e português – matérias básicas em qualquer vestibular e na vida social destes alunos.

Ainda mais grave do que constatar que pouquíssimos alunos têm conhecimentos avançados em português e matemática é descobrir os índices de insuficiência de conhecimento nestas disciplinas: 57,7% dos examinados tiveram resultado insuficiente em matemática e 37,9% em língua portuguesa. Ou seja, os alunos da 3ª série do ensino médio, que estão deixando a escola estadual para tentar uma vaga no vestibular, ou no mercado de trabalho, não aprenderam bem as matérias básicas.

O que também acontece todos os anos são as propostas de inclusão de disciplinas na grade curricular do ensino público. Projetos de lei são elaborados por Deputados Estaduais e decidem a inclusão de matérias como filosofia, língua espanhola, sociologia, educação ambiental, teatro e outras muitas na grade regular das escolas públicas. Em São Paulo, onde os alunos da rede estadual não sabem bem matemática e português, existem projetos de lei para que as escolas públicas passem a ensinar Religião e até educação no trânsito, entre outras disciplinas “alternativas”.

A inclusão de novas matérias é vista – por quem as sugere – como proposta de melhoria para o ensino. Na escola onde os professores não conseguem ensinar bem as disciplinas básicas, querem outros professores, para ensinar outras coisas. E as matérias básicas? Qual a proposta para melhorar seu aprendizado? Uma proposta para esta questão é muito mais importante do que as propostas de inclusão de novas disciplinas.

Investimento na capacitação e reciclagem dos professores. Aumento salarial.  Contratação de novos professores para reforçar o estudo de matérias básicas. Sistema de manutenção dos prédios escolares. Salas deinformática que funcionem e com projetos de monitoria para envoilver os alunos. Aulas extras. Diminuição do número de alunos por classe, priorizando uma atenção mais individualizada.  Mais horas por turno escolar. Aumento da carga para o Ensino médio aos sábados, inclusive. Estas são algumas idéias que deveriam vir antes de qualquer “nova” matéria.
Tenho vontade de perguntar aos que propõem a inclusão de novas disciplinas se eles sabem que as disciplinas básicas não estão sendo assimiladas pelos alunos do ensino público. O nome “básica” não vem a toa. Em qualquer construção, a base é o mais importante, o que vem primeiro, né? Aqueles que sugerem que alunos que não sabem bem o português, estudem filosofia nas horas que passam na escola, começam construindo uma casa pelo telhado?

Confissões de Rodapé: O berro vem junto com o cabrito…

Tudo o que sabemos sobre:

currículo escolarEnsino fundamentalSARESP

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.