Armazém da Vila

Vitor Hugo Brandalise

12 Julho 2011 | 21h14

Armaz__m_da_Vila.JPG

José Martins de Oliveira: Armazém com a família desde a década de 1940

Por 70 anos, um armazém de secos e molhados resistiu intacto ao progresso que mudava tudo a sua volta. Não tinha nome. Ficava no número 547 da Rua Fidalga, na Vila Madalena, zona oeste de São Paulo.

Quem tocou o comércio – ortodoxo a ponto de expor grãos em barris e manter balança manual até fechar – entre a década de 1950 e o ano passado foi Militão Paulino Martins, com “paixão que só o dono pode ter”. “Seu Militão”, como era conhecido na vizinhança, começou a trabalhar no armazém como ajudante aos 9, 10 anos. Aos 17, comprou-o do antigo dono.

Numa sexta-feira de outubro, trabalhava normalmente quando passou mal. Imaginou ser uma gripe forte e voltou para casa. Tinha 81 anos quando morreu, com problemas cardíacos.

“Era a vida dele. Não iria abrir mão nunca, nem que toda a volta estivesse rodeada de prédios”, contou o filho, José Martins de Oliveira, que herdou o negócio do pai. José também gostava do negócio, trabalhou nele por 32 anos, inclusive o impediu de ser transformado em bar. “Fornecíamos muitos outros produtos. Não queria ver nosso negócio reduzido a bebidas.” Mas, quando o pai morreu, desistiu.

Hoje, o armazém está fechado. No terreno da frente, um prédio comercial de oito andares está sendo erguido – mais um edifício de uma grande construtora, que já construiu outros sete na Vila Madalena. São prédios modernos, com design elogiadíssimos, assinados por arquitetos como Isay Weinfeld. Bastante diferentes das casas térreas que, por anos, marcaram a paisagem da Vila.

“A Vila Madalena vem mudando muito mesmo. Nós contribuímos com isso, porque não conseguimos manter o armazém”, disse José Martins ao Expedição, no fim da tarde de hoje. “Como meu pai não gostava de mexer nele, não valeria mais a pena atualizar quando ele se foi. Então decidimos fechar. Com a Vila, é mais ou menos assim. Os mais velhos vão indo e os que ficam mudam tudo. Sempre foi assim.”

Desde que o armazém fechou, José já recebeu duas propostas para vender o terreno. O que ofereceram ainda não foi suficiente para convencê-lo.

Pr__dios___Vila2.JPG

 Obras de edifício comercial na Rua Fidalga: mais um prédio modificando a paisagem da Vila Madalena

Fotos: Tiago Queiroz/AE

Texto: Vitor Hugo Brandalise