Um persistente fazedor de charretes

Estadão

24 Setembro 2010 | 16h23

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Por Ana Bizzotto*

* Foto de Werther Santana/Agência Estado

As romarias foram o ponto de partida para Carlos Alberto Lucas se interessar pelo ofício que se tornou seu ganha pão há 15 anos. Conhecido como Barba, ele fabrica charretes e sulkys, carros de madeira acoplados aos cavalos de corrida de trote. O contato com o fiel companheiro de peregrinações nas festas e viagens foi um incentivo para que ele trocasse o trabalho em uma oficina mecânica pela sociedade com um amigo para a produção dos equipamentos. “Tudo que pertence ao ramo dos cavalos a gente faz”, resume ele.

Na época em que Barba começou, as corridas de trote não estavam mais na fase áurea que tiveram nos anos 50, 60 e 70, mas continuavam a atrair centenas de pessoas. Os páreos não ocorrem oficialmente na capital desde 2003 – o local onde eram realizadas, na Vila Guilherme, foi desapropriado em 2005 e integrado ao Parque do Trote. Lá, ele viu seu filho ser campeão pouco tempo antes do fim das corridas. “Depois, nós ficamos sem pista, sem lugar para trabalhar os animais.”

Sobraram poucos criadores de cavalos de trote e poucos fabricantes do sulky, mas Barba garante estar longe de largar o ofício: ele fabrica pelo menos um por mês e se tornou o único dono da oficina, na Vila Formosa, zona leste, bairro onde nasceu e foi criado. Ele conta com a ajuda de apenas um funcionário para montar à mão, de forma artesanal, a estrutura de madeira e ferro fundido dos sulkys e charretes – cada equipamento demora uma semana para ficar pronto. Barba também reforma equipamentos, e a mulher, com quem vive no mesmo bairro, produz os estofados e tapetes. “Tem bastante procura, mas hoje também tem os importados, que fazem concorrência.”

No pequeno cômodo que serve de escritório e almoxarifado na oficina, a imagem de Nossa Senhora divide espaço na parede com fotos das corridas e também de peregrinações – Barba já organizou nove romarias de charreteiros do bairro Vila Formosa até a cidade de Aparecida do Norte. “Já tenho umas 100 mil fotos”, afirma, orgulhoso, mostrando algumas imagens.

Geralmente, Barba vai às romarias de charrete e volta de caminhão. Uma vez, porém, foi e voltou de charrete, em viagem que durou 15 dias. “São 250 quilômetros e três meses de preparação para as romarias. Vou por dentro do Vale do Paraíba. É gostoso e cansativo”, conta ele, que diz ser muito devoto – chegou a ficar 18 anos sem raspar a farta barba que lhe rendeu o apelido, jejum interrompido para cumprir promessa em Aparecida. Neste ano, ele pretende ir de bicicleta no feriado em que se comemora o dia de Nossa Senhora Aparecida.

Com o fim das corridas de trote na capital, Barba continua participando, agora como espectador, das festas, encontros e corridas não oficiais promovidos em cidades como Inadaiatuba e Campinas. “É um ponto de encontro, você negocia vendas e reformas, vê todos os amigos e se diverte bastante”, explica ele. “Mas a turma está torcendo para voltar a ter uma pista oficial aqui em São Paulo.”

* Ana Bizzotto é repórter do caderno Metrópole, do Estadão.