Seu Anilson, o “Tarzã” do Anhanguera

Estadão

04 Fevereiro 2011 | 12h33

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Por Rodrigo Burgarelli*
Foto de Jonne Roriz/AE

Não havia dia fácil para aquele moço que morava no meio do mato. O trabalho já começava lá pelas 3 da manhã, quando ele largava o barraco erguido entre as árvores para enfrentar três horas de caminhada até a Lapa, onde pegava uma condução para o centro.  Na volta, o mesmo trajeto – ônibus, três horas a pé e de novo aquela imensidão de verde, barulho de bicho, sem casa nenhuma por perto a não ser a do seu Artur de Brito, o dono da fazenda.  Difícil era, mas não foi para fazer corpo mole que ele tinha deixado mulher e filha na Paraíba.  E lá saía ele a caminhar três horas de novo.

Foram assim os primeiros meses do seu Anílson Dantas da Silva naquele começo de 1961. Hoje, Anílson é um aposentado de 88 anos, que gagueja enquanto fala e que passa todos os seus dias num barraquinho velho e rodeado de verde no distrito de Anhanguera, no noroeste da cidade. O motivo de ele estar ali não podia ser outro. “Já tive a oportunidade de morar em Osasco, nos anos 1980. Cheguei lá com a família na casa que me arrumaram, mas nem desci do carro porque sabia que não ia conseguir ficar ficar longe do verde, no meio de tanta cidade”, conta. Há exatos 50 anos, seu Anílson vive no distrito em que há mais área verde em parques e praças de toda São Paulo.

Quando o paraibano chegou no local, toda aquela terra ainda era o Sítio Santa Fé, uma antiga fazenda localizada ao norte do Pico do Jaraguá. Ele foi parar ali graças ao seu antigo empregador, dono de uma loja de outdoors na Avenida São João em meados do século passado. “O chefe era amigo do dono da fazenda e me arrumou um canto aqui para eu erguer meu barraco”, explica. É claro que viver uma vida inteira naquela lonjura não foi fácil, mas, etapa por etapa, a situação foi melhorando. Primeiro, comprou uma bicicleta para chegar mais rápido ao trabalho. Depois, conseguiu trazer mulher e filhas. Hoje, toda a família, cerca de 20 pessoas, mora em uma pequena vila de cinco casas próxima à Estrada Velha do Jaraguá – onde, há muito tempo, passavam os tropeiros que abasteciam a região mineradora de Perus.

Sua filha mais velha, a comerciante Maria Gorete Dantas da Silva, de 45 anos, ainda lembra e ri de quando ela e as irmãs eram conhecidas como “filhas do Tarzã”. “Todo mundo chamava meu pai assim, porque ele teimava de querer morar no meio do mato. Era tão longe que o motorista do ônibus da escola, que passava pela Estrada de Perus, preferia desviar do caminho e me deixar aqui em casa para não ter perigo. Era uma volta boa, mas eles vinham brincando, chamando meu pai de Tarzã, e todo mundo ria”, lembra.

Em 1978, grande parte da antiga fazenda foi comprada pela Prefeitura, que criou ali do lado o Parque Anhanguera, o maior da cidade. O resto do sítio acabou dando lugar para algumas indústrias, um pesque e pague, algumas ruas asfaltadas e a pequena vila onde Anílson e a família ainda vivem. Agora, seu principal hobbie é a criação de bichos: são uma vaca, 3 cachorros, 9 patos, 15 galinhas, 20 pombos e 23 gatos. Coisa que só é possível ali, a 30 quilômetros do centro, naquele pequeno universo de verde incrustado na metrópole onde seu Anílson, o “Tarzã”, decidiu viver.

* Rodrigo Burgarelli é repórter do caderno Metrópole, do Estadão.