Que espera o joalheiro?

Estadão

03 Setembro 2010 | 21h40

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Por Vitor Hugo Brandalise

Por seis anos, um número o assombrou: 1268. Indicava lotação: 1268 lugares – capacidade do antigo Cine Astor, que funcionou por 45 anos no Conjunto Nacional, na Avenida Paulista. Fechou em 2001 – e despertou, no joalheiro que trabalha em frente, um sentimento incômodo, “de quem teria de esperar”. Por seis anos, Aike Dossis pôde ser visto, com frequência, recostado num dos pilares do edifício, observando a plaqueta cinza. 1268: os lugares, antes ocupados por gente, agora para sempre vazios?

Enquanto o espaço do antigo cinema esteve desocupado, entre 2001 e 2007, Aike esperou. Aguardou – “paciente, mas incomodado” – uma reabertura do espaço. “Triste ver o cinema vazio. Houve momentos em que essa área do prédio lembrava as velhas galerias do centro, nos piores dias da década de 1980”, contou. “E o pior é que falamos do Conjunto Nacional, um dos símbolos da cidade.”

A espera tinha razões práticas – “a maior parte do meu tempo passo no Conjunto” – e também sentimentais. Já faz 40 anos que a família Dossis, de imigrantes gregos, abriu a joalheria no local. “Por isso me importo tanto com o prédio, e por isso fiquei tão chateado quando o cinema fechou”, contou o joalheiro, de 52 anos.

Os vidros pintados por dentro, para ninguém mais ver o saguão; a bilheteria tapada por tapume preto; a plaqueta de lotação, delimitando um público que não apareceria mais. Na memória de Aike – batizado Miltiades Dossis, mas conhecido pelo apelido, que significa “inho”, em grego – ficaram clientes da joalheria que ele chamava de “público do cinema”. “Apareciam na segunda-feira. Eram as mulheres que na véspera haviam olhado a vitrine, enquanto os maridos compravam ingresso para o filme do domingo”, conta. “Depois do Se meu Fusca falasse, em que a fila dobrava a esquina, melhorou o movimento na joalheria. Coincidência é que não foi.”

Eram, porém, clientes que não voltariam mais – não havia motivo. Primeiro, ouviu falar que o cinema viraria um bingo. Depois, igreja evangélica. Por fim, tapumes cobriram novamente o antigo Astor e a movimentação de operários, engenheiros, arquitetos, começou.

“Me convidaram inúmeras vezes para conhecer a obra. Mas nunca aceitei entrar, tinha receio do que poderia ser. Quando soube o que seria feito, entendi que a espera havia terminado.” Já faz três anos que a Livraria Cultura, frequentada por 5 mil pessoas por dia, funciona no local – para alegria do joalheiro, que, de tanto ficar por ali durante a obra, fez amizade com os trabalhadores. Também conheceu o arquiteto Fernando Brandão, autor do projeto.

E foi numa conversa encostado no pilar que o joalheiro soube, por exemplo, que Brandão estava para completar aniversário de casamento. Pensando em retribuir “a melhor notícia da década”, o joalheiro da frente ofereceu uma lembrança, sua especialidade: par de anéis feitos a mão, artesanalmente, como todas as peças que produz.

O arquiteto se emocionou ao receber as joias, de prata, inspiradas no que lhe é caro. Também é ao joalheiro: no meio de cada anel, Aike esculpiu, com fios de prata, desenho idêntico à trama dos corrimãos da entrada da livraria – onde ficava também a bilheteria, a entrada, a plaqueta do Cine Astor.