PM Fotógrafo leva calma ao quartel

Estadão

01 de outubro de 2010 | 17h59

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Por Vitor Hugo Brandalise

De repente, a tarde ficou tensa na sede do Comando Geral da Polícia Militar, na Praça Coronel Fernando Prestes, centro de São Paulo. Corre-corre dentro do prédio, notícia ruim acabara de chegar: um policial havia sido reconhecido como possível participante de assalto a banco em Osasco. Roubo grande, imprensa em cima, o comando geral teria de se pronunciar.

Nos corredores do quartel, os policiais respondiam à tensão: agora estavam calados, subitamente sisudos. Na sala de imprensa, um entra e sai de coronéis orientava as respostas a serem dadas aos jornalistas. No térreo, os quatro PMs que tomavam conta da portaria, até então sorridentes, fecharam a cara. Clima pesado, ao menos enquanto não se esclarecesse “a situação”.

Nesse momento, porém, havia um policial no jardim. Vestia farda, mas não tinha arma no coldre – segurava, isso sim, uma câmera Canon 50D profissional. Mesmo com toda a movimentação, o sargento Emerson Coutinho, de 37 anos, tinha de se preocupar com seu ofício: ele procurava flagrar pássaros que se banhavam no lago artificial do jardim japonês na frente do quartel. “A tarde está ensolarada, e a luz, perfeita”, disse.

Já faz 14 anos que o sargento Coutinho se dedica a registrar o cotidiano da corporação. No começo, como soldado em Mogi das Cruzes, carregava uma câmera doméstica despretensiosamente, para clicar viaturas e colegas. “Comecei a unir o útil ao agradável quando comprei uma câmera semiprofissional. Fiz uma série de viaturas e policiais, a chefia ficou sabendo e pediu para ver.” No fim, foi convocado para fotografar pontos turísticos de cidades do Alto Tietê, que acabaram virando o calendário oficial do batalhão de Mogi, em 2007.

Foi um trabalho que rendeu a Coutinho, além da primeira publicação, uma promoção: acabou aceitando convite para ocupar um cargo na Seção de Comunicação Visual da PM. Hoje, Coutinho é um dos quatro policiais responsáveis pela imagem institucional da corporação. “Vejo meu trabalho como uma forma de homenagem. Quem está sempre na rua, sofrendo estresse o tempo todo, fica muito lisonjeado quando aparece nas fotografias oficiais”, contou. “Ficam orgulhosos por representar a corporação.”

Um orgulho que o sargento faz questão de defender – no Dia do Funcionário Público, por exemplo, ficou sabendo que o Banco do Brasil queria colocar atores fardados para representar a polícia no catálogo fotográfico que era produzido. “Nada disso. Sugerimos tirar fotos reais de um policial e de um bombeiro. Para que gastar com ator? Ajuda a melhorar a autoestima do policial.”

Além disso, diz o sargento, “as imagens acalmam”. Como a série que clicava em frente ao Comando Geral, do jardim criado seguindo ensinamentos de Feng Shui. “Servirão para fazer um folder para distribuir nos quartéis e para os visitantes”, contou, enfocando o lago entre dois pequenos pinheiros. “Para mostrar a todos o jardim e tentar fazer com que percebam que um passeio por aqui pode servir para aliviar o estresse.”

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