Os colecionadores de taxímetros

Estadão

03 Maio 2011 | 14h07

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Por Edison Veiga*
Foto de Werther Santana/AE

“Nosso foco maior, nosso prato principal, sempre foram os taxímetros”, conta Jorge Longo, de 37 anos. E ficam lá, exibidos com orgulho numa prateleira de sua pequena oficina, na Mooca, pedaços da história do táxi em São Paulo. Jorge guarda como se fossem troféus todos os modelos de taxímetro com os quais sua empresa, a Auto Geral Pardal, já trabalhou. Fundada em 1969 – por Mariano, pai de Jorge, morto em 2009 –, ela foi testemunha das mudanças tecnológicas vividas pela categoria. É uma das 32 oficinas hoje credenciadas na cidade com autorização para mexer nos taxímetros – quando eles apresentam algum problema ou quando, como recentemente, há alteração na tarifa.

No total, a coleção de Jorge tem 22 modelos diferentes. Os mais antigos, de corda e mecânicos – “todo dia de manhã o taxista precisava dar corda antes de começar a trabalhar”, explica Jorge. Depois, ainda mecânicos, surgiram os elétricos, ligados na bateria do carro. Em seguida apareceram os digitais – “o primeiro deles, no fim dos anos 80, ia acoplado no lugar do rádio do carro”, conta Jorge. E até, no início dos anos 90, um de cristal líquido, que não pegou – “não deu certo porque os bandidos roubavam muito… Achavam que era televisãozinha”, ri o funcionário José Carlos de Moura, de 58 anos, que instalada, desinstala, desmonta e conserta taxímetros desde quando era criança, há 48 anos.

E é José Carlos que detalha como era o primeiro taxímetro de São Paulo – peça que falta na coleção de Jorge. “Era tão grande, que ficava do lado de fora do carro, perto do retrovisor”, explica. E os carros, hein, José Carlos? No começo de sua carreira instalou muito taxímetro em Fusca? “Que é isso, rapaz! Fuscas eram carros modernos. Quando comecei, o que tinha mesmo era táxi DKW, Aerowillys, Itamaraty, Galaxy 500… Até Gordini aparecia”, diz.

Tanto José Carlos quanto Jorge têm saudades de quando os taxímetros eram mecânicos. “Aquele era um tempo bom, sabe? Ia o dia inteiro para ajustar um. Sabia que dentro de um desses (aponta para um dos antigões) existem 365 pecinhas? Os de hoje não dão trabalho…”, comenta José Carlos. “Para você ter uma ideia, na época do último reajuste da tarifa, agora, no início do ano, chegamos a ajustar 130 por dia. É só trocar um chip, muito rápido”, completa Jorge. “Pois é… Antes ajustar taxímetro era trabalho de relojoaria”, lamenta José Carlos, que em sua casa também guarda três taxímetros antigos. Ficam em cima de seu aquário de 300 litros de água, onde ele mantém carpas e kinguios.

Versão ampliada de perfil publicado na coluna Que Figura!, do caderno Metrópole, em 26.04.2011.

* Edison Veiga é repórter do caderno Metrópole, do Estadão, e também tem seu blog aqui.