O jardineiro de Ramos de Azevedo

Estadão

21 Janeiro 2011 | 19h38

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Por Vitor Hugo Brandalise
Foto de Evelson de Freitas/AE

Quando previu jardins nas casas que projetou, o arquiteto Ramos de Azevedo deveria saber que alguém teria de cuidar deles depois. Mesmo 50 anos depois? “Mesmo 100 anos depois”, resume o homem baixinho, de modos tímidos, sentado num banco sombreado por jacarandá de 20 metros no jardim de um casarão antigo do bairro da Liberdade, no centro de São Paulo.

Antonio Rodrigues Velame, 75 anos, tem um único emprego indicado na carteira de trabalho: Jardineiro. Em seu caso, diante de ocupação tão ímpar, o documento poderia ser até mais específico: Antônio, o Toninho, sempre foi Jardineiro de Casas de Ramos de Azevedo. Já faz 56 anos.

Seu primeiro emprego foi em 1955, logo na Casa das Rosas – construída pelo arquiteto na Avenida Paulista para a filha, Lúcia, e onde funciona hoje famoso centro cultural –, quando era recém chegado de Baixada das Palmeiras, na Bahia. No emblemático endereço ajardinado, Toninho ficou responsável pela área mais visada: o jardim de rosas que dá nome à casa. “Aprendi a podar tudo que é tipo de rosa. Vez por outra, tirava algumas para colocar em vasos na casa.”

Ainda naquele ano, Toninho se mudou para um quarto dos fundos do casarão, a convite da patroa – entre as lembranças que guarda de “Dona Lúcia”, aliás, está o bom tratamento aos funcionários. “Lembro do meu primeiro salário: 1.800 mirréis. E, três meses depois, já recebi um aumento. Passou para 2 mil e logo depois melhorou de novo. Está tudo na carteira de trabalho.”

Além de tomar conta do roseiral, Toninho cuidava da “higiene e asseio” do galinheiro que existia nos fundos do terreno. “Já pensou? Galinhas na Paulista? Outros tempos…” Nessa época, aos fins de tarde, a pedido de D. Lúcia, Toninho descia a ladeira da Avenida Brigadeiro Luís Antônio até o número 111 da rua Pirapitingui, na Liberdade.

Lá vivia Laurita, neta do famoso arquiteto, em outra residência histórica: na primeira casa em que Ramos de Azevedo morou na cidade, construída em 1891, e depois herdada pela neta. “Ia levar ovos para a D. Laurita. Mas acho que ela não dava muita bola, não. Era mais coisa de mãe. A D. Lúcia sempre foi tão prestativa…”

Após a morte de Lúcia, o filho, Ernesto Dias de Castro Filho, e a esposa, Anna Rosa, passaram a viver no palacete da Avenida Paulista. O jardineiro da família foi mantido. Toninho tomou conta dos roseirais por 31 anos, até que a casa foi desapropriada pelo governo, em 1986.

Apesar da mudança de endereço, ele continuou cuidando dos jardins da família – em outro casarão projetado pelo arquiteto, também na Rua Pirapitingui – até o final da década de 1990, quando D. Anna Rosa morreu. Pela primeira vez, Toninho deixou de ter vínculos com a família. O jardineiro achou que ficaria sem emprego. Mas não foi o que aconteceu.

Para o casarão do lado, o mesmo a que Toninho levava ovos na década de 1960 e primeira casa de Ramos de Azevedo na capital, mudou-se uma editora, a Global. Preocupado em preservar a história do casarão, o novo proprietário, Luiz Alves Júnior, quis manter também o jardineiro da família.

E lá está o Toninho até hoje, numa casa com novo uso, mas que ainda mantém estufas projetadas no século 19 para ele cuidar. “Não entendo nada de arquitetura”, disse ele, após rememorar sua trajetória no banquinho embaixo do jacarandá. “Mas depois de tanto tempo de serviços e tanta ajuda, sinto muito carinho por essa família.” 

Carinho que leva o jardineiro a guardar no criado-mudo, há quase 20 anos, um recorte de jornal emoldurado de 12 de março de 1991, dia seguinte à inauguração da Casa das Rosas como equipamento cultural. “Não sei muito de escrita, não senhor, mas você vai gostar de ler. Vou trazer para você amanhã.”

Naquela manhã, bem cedo, ele levantou o porta-retrato com orgulho.

– Pena não haver nenhuma dedicatória da dona Anna Rosa, não, Toninho?

– Meu filho, ela disse que deveria ficar comigo porque era como se eu fosse da família. Tem melhor dedicatória?