O homem que conduz a peruada

Estadão

08 de setembro de 2010 | 14h24

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Por Edison Veiga*

*Foto de Hélvio Romero/Agência Estado

Ele é o homem forte do Departamento Jurídico XI de Agosto, entidade de assistência judiciária gratuita que funciona no centro de São Paulo. Mas não é advogado, nem nunca sonhou em ser um. Benedito Vitor Januário dos Santos, 64 anos, é dono de uma fala rápida e firme e tem uma empatia que cativa, há algumas gerações, os alunos da Faculdade de Direito do Largo São Francisco que estagiam ali.

Contratado desde 1978 como assistente jurídico, incumbe-se de fazer a triagem dos casos que chegam à entidade diariamente. “Faço uma coordenação geral”, diz. “Seleciono e passo os casos aos estagiários.” Além dos oito encaminhamentos processuais diários, o departamento também oferece orientação jurídica a cerca de 10 pessoas por dia. Tudo de graça.

Vida. “Eu queria ser padre”, lembra Vitão – apelido pelo qual é conhecido –, que nasceu e cresceu na pequena cidade de Colômbia, região de Barretos, no interior paulista. “Tanto que fui para um seminário, em Rio Claro, e lá fiquei por 11 anos. Quase me ordenei.” Durante os tempos de seminarista, realizou testes vocacionais que indicavam aptidões artísticas. “Eles me incentivavam a utilizar isso religiosamente. Então me colocaram para tomar aulas de piano, canto e teatro.”

Em 1960, descobriu que não tinha era vocação para ser sacerdote. Largou a batina e mudou-se para Curitiba. “Por um ano, fui recepcionista de um hotel”, lembra. “Aí vi que não era para mim e mudei-me para São Paulo, onde já vivia uma prima minha.” Na capital paulista, foi bancário e reencontrou as aptidões artísticas afloradas nos tempos de vida religiosa.

“O Teatro Municipal oferecia um curso de teatro, gratuito, e eu me inscrevi”, narra. “Era bem intenso. Durante seis meses, tinha aulas de dança clássica e moderna, jazz, expressão corporal…”. Começou, então, a trabalhar na noite paulistana: atuava em peças teatrais e era promoter de boates. E desfilava em eventos como a Feira Internacional da Indústria Têxtil (Fenit).

Nome. Vitão não nasceu Vitor. Sua mãe queria que ele se chamasse Carlos Vitor. Seu pai foi fazer o registro e se esqueceu. Botou lá Benedito. E não contou à mulher, claro. “Descobri que não era Vitor quando entrei para a escola”, recorda-se. “Foi um choque.” O apelido ficou e virou nome artístico. No teatro, era Vitor Moura. “Precisava de um nome forte e foi assim que me registrei como ator profissional”, conta.

Mundo jurídico. E foi pelas noitadas paulistanas que ele chegou ao emprego atual. “Frequentava bares do centro e ali tinha conhecidos que estudavam Direito no Largo São Francisco”, explica. “Foi um amigo de bar que propôs: ‘vamos levá-lo ao Departamento Jurídico’. Eu nem sabia o que era, mas topei, feliz. Pelo menos teria dinheiro para pagar a pensão.”

Não demorou muito para se tornar símbolo da instituição. Tanto que, com a retomada da tradição da peruada – comemoração político-etílico-carnavalesca, organizada pelos alunos do Largo São Francisco em outubro –, em 1983, ele foi escolhido para conduzir o peru (vivo) pelas ruas do centro paulistano. Função que cabe a ele até hoje. “Cai de gaiato no navio. Porque eu tinha essa cancha do teatro e, na rua, ajudaria a chamar a atenção”, justifica-se. “Aí gostei da história. E sou eu que sustento o peru na frente da peruada.”

Vitão só lamenta que a festa tenha perdido um pouco seu caráter de questionador político. “Virou uma micareta. E tornou-se mais uma festa etílica mesmo”, afirma. Seu trabalho no Departamento Jurídico XI de Agosto – diariamente, das 14h às 18h – rendeu-lhe o ganha-pão. Mas não só. Ele é uma das figuras de um livro sobre os 90 da instituição, organizado pelo historiador e editor Cássio Schubsky, da Lettera.doc. E, de certa forma, conseguiu realizar o sonho da mãe. Com o conhecimento jurídico, Vitão conseguiu retificar seu nome. Hoje ostenta no RG: Benedito Vitor Januário dos Santos.

Versão ampliada de perfil publicado na coluna Que Figura!, do caderno Metrópole, em 10.08.2010.

* Edison Veiga é repórter do caderno Metrópole, do Estadão, e também tem seu blog aqui.