O goleiro que criou a ‘dinastia do chocolate’

Estadão

25 de abril de 2011 | 21h04

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Por Vitor Hugo Brandalise
Foto de Clayton de Souza/AE

Aldo Malagoli foi goleiro do Corinthians por cinco anos, entre 1958 e 1963. Sofreu com Pelé e Garrincha, ganhou fama de milagreiro, foi cotado para a seleção na Copa de 1962. E se aposentou cedo, aos 34 anos, quando quis se dedicar mais à família – decisão que o levou a andar cabisbaixo pelos campos da várzea. E agora, Aldo, que fazer da vida? Enquanto não decidia, aceitou um bico: venderia chocolates. Todos o conheciam, seria bom vendedor.

Foi tão bem que consequências maiores surgiram. Numa tarde de bola num campo do Butantã, na zona oeste de São Paulo, o ex-ponta-direita Ari, do Radium Clube de Mococa, correu até ele. Será que Aldo teria interesse em aprender a fazer chocolate? Sua irmã trabalhava na fábrica da Kopenhagen, na época no Itaim-Bibi, e poderia ser a chef. Ficou indeciso, era conservador, não tinha experiência… Mas, que diabo, não existiam muitas chocolaterias na cidade na época. Aldo topou.

Assim teve início uma série que chegou a seis fábricas de chocolates artesanais comandadas por uma mesma família, a partir do negócio de Aldo, naquele junho de 1971. Hoje, são 20 tios, primos, irmãos, cunhados, sobrinhos e netos que tocam os negócios nas quatro fábricas que restaram na cidade.

Vaneza, nome da primeira filha do goleiro com a mulher, Elisabeta, também foi o nome escolhido para batizar a primeira fábrica da linhagem, dentro da casa dos sogros de Aldo, os Marconis, no Bom Retiro. “A casa ficava lotada, vinha gente de longe comprar chocolate”, contou o goleiro numa manhã da semana passada, entre funcionários atarefados que tentavam dar conta dos pedidos da Páscoa.

Um ano depois, em 1972, Aldo deixou a Chocolateria Vaneza (que funcionou até meados dos anos 2000 nas mãos dos tios de Elisabeta) e fundou a Liverpool, no Butantã. Está lá até hoje, produzindo 12 toneladas de chocolate caseiro em feriados assim, de maior movimento. “O que aconteceu foi simples: o pessoal da família foi vendo que funcionou e entrou no mesmo barco.”

Os próximos a investir no ramo foram Gulhermo e Romeu Marconi, tios de Elisabeta. Primeiro, venderam tabletes de chocolate com amendoim em feira livre no Bom Retiro e na porta de casa. As filas dobravam a esquina e Gulhermo e Romeu perceberam que precisavam de mais espaço. Na zona norte, abriram a fábrica Munik, em 1975. Hoje, é a maior da família, com 27 unidades próprias na capital e Região Metropolitana – e seis Marconis tomando conta, da administração à linha produtiva.

Outro a se empolgar com o sucesso do novo ramo, num tempo em que ainda não havia grandes redes, foi Antonio Carlos Seripieri, cunhado de Aldo e Elisabeta. Também em homenagem à primeira filha, abriu a Chocolateria Ariane, no Morumbi. E lá se vão 26 anos, com gerações da família tocando juntas a fábrica.

Em 1989, ainda surgiria a Di Siena, em Perdizes, fábrica-caçula da família, fundada por José Oswaldo Marconi e Primo Paulo Marconi. Oswaldo começou na linha de produção da Vaneza, fazendo gotinhas de licor. “A dedicação de um foi puxando a de outro. Na Di Siena são três Marconis levando em frente o nome”, contou Oswaldo. “Pena que, com a correria, não conseguimos nos reunir.” Sem chances, portanto, de reunião para o almoço de Páscoa hoje: para Malagolis, Marconis e Seripieris, almoço especial só amanhã, e “se der”.

Veterano. Mesmo com a rotina nas fábricas de chocolate, Aldo nunca largou os gramados. Aos 75 anos, bate bola duas vezes por semana no Clube Pinheiros, do qual é conselheiro. Quarta-feira é dia de “rachão” e, no domingo, ainda tem campeonato de veteranos – competição em que, nos últimos anos, vem sendo o goleiro menos vazado. “O Milton Neves (jornalista esportivo) diz que sou o único “veterano em atividade” do futebol.”

Mesmo nas metáforas, sempre que pode, arrisca unir chocolate e futebol. Como quando pretende explicar o porquê de a família toda trabalhar no ramo. “É como o jogador que começa nas categorias de base de um time. Ao subir para o profissional, já não sente tanto o peso da camisa. Nos chocolates também foi assim.” Quem já estava no time, diz Aldo, viu a oportunidade e continuou vestindo a camisa.

Versão ampliada de perfil publicado na seção Paulistânia, no caderno Metrópole, em 24.04.2011.

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