Mano, o alimentador de passarinhos

Estadão

21 de abril de 2011 | 12h16

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Por Vitor Hugo Brandalise
Foto de Tiago Queiroz/AE

Para passarinho, mamão é filé mignon. A constatação é de Tomomi Uemura, o “Mano”, despachante aposentado que vai todo dia ao Parque da Aclimação, no centro, com missão que considera indispensável: alimentar passarinhos. Há sete anos, chuva ou sol, Natal ou carnaval, lá vai Mano, carregando frutas da feira para encher o papo dos penosos. Acabou ficando amigo das aves. “Só não comem na minha mão agora porque pensam que essa câmera é uma espingarda.”

No parque, frequentadores o chamam de “japonês dos passarinhos”. Desde que se aposentou, em 2004, seu trabalho voluntário é abastecer as duas bancadas de madeira que ficam atrás da concha acústica, com 30 a 40 mamões e mais 35 bananas por dia. Sabiás-laranjeira, sanhaços, periquitos, a passarada faz a festa com o banquete de Mano.

Questões estratégicas o levaram a escolher o “local de trabalho”. Nos arredores do parque há seis feiras livres, quase uma por dia da semana. Ficou tão conhecido que nem precisa avisar: os feirantes separam todo dia frutas para ele. “Na terça, é na Rua Guimarães Passos. Na quarta, na Oliveira Peixoto. Na quinta, Teodureto Souto, e por aí vai”, enumera – e se empolga: “Aqui é a cratera de um vulcão! Um centro de distribuição privilegiado! É quente!”

O dia desse voluntário alimentador dos passarinhos começa cedo: caminhada a partir das 5 horas, frutas para os pássaros às 8, feira no início da tarde para abastecer o carrinho. “Nunca perdi um dia. Natal, ano novo, nunca.” Para facilitar a vida, ele mesmo resolveu melhorar a infraestrutura do parque. “Fiz uma vala para escoar a água e construí a segunda bancada.”

O aposentado, de 64 anos, tem uma única bronca. “Não aguento pais que ensinam os filhos a assustar os passarinhos. Ainda vou chegar para um desses e falar: ‘cai fora você, seu tranqueira! Eles não têm outro lugar para ir numa cidade como essa!’”

Depois, enquanto discorria sobre o penteado dos pica-paus-pretos – “parece que passou gel no cabelo, todo cheio de marra ” – ele interrompeu o raciocínio. Já são 11h30, ele tem compromisso, tem de puxar logo o carrinho. “Me apavoro só de pensar em perder a hora, tenho mesmo de ir”, disse, e encerrou a conversa. Era terça, dia de feira na Guimarães Passos.

Versão ampliada de perfil publicado na coluna Que Figura!, do caderno Metrópole, em 21.04.2011.

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