Luciano Martelatto, um músico contra o barulho

Estadão

09 Dezembro 2010 | 15h38

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Por Vitor Hugo Brandalise

Há músicas tão boas que merecem ficar na cabeça. Há pontos na cidade em que as pessoas andam tão apressadas, a barulheira é tanta, que levam consigo apenas estresse. Luciano Martelatto, 56 anos, músico, se desdobra todo dia para que uma ponta anule a outra. Na cabeça de quem sofre com a metrópole, ao invés de aborrecimentos, notas musicais. Para isso, sopros de flauta, de sax.

A gravata é amarela. O fraque, branco. E lá está o Luciano, na esquina das avenidas Higienópolis e Angélica, na zona oeste, empunhando o saxofone, disputando decibéis com as buzinas do cruzamento. Quem para e escuta recebe um sinal reverente com a cabeça. Se houver contribuição, além do sinal, ele erguerá, respeitosamente, a grossa sobrancelha esquerda. “Toco músicas que levam bons sentimentos às pessoas. Vejo o pessoal ficar alegre, atravessar a rua sorrindo. É uma satisfação”, disse o músico pernambucano, morador de São Paulo desde 1962.

Há 10 anos, ele deixou de tocar em orquestras de televisão – “hoje, é quase tudo DJ, a música ao vivo na TV está acabando” – e escolheu as ruas da cidade como palco. “À noite, trabalho em eventos. Durante o dia, prefiro levar música às ruas do que ficar em casa. Aliás, deveria haver coretos espalhados pela cidade, para dar mais oportunidades de tocar.”

Caso os coretos de Luciano realmente existissem, ele saberia o que tocar em cada um deles. Tanto tempo na rua o ensinou a adaptar seu repertório a quem circula pelos pontos escolhidos. “Às vezes acerto em cheio. É quando vejo um ou outro espectador disfarçando uma lágrima.”

Naquela região de Higienópolis, perto do meio-dia, Luciano tocava clássicos italianos e franceses – Volare e Io Che Amo Solo Te a quem procura a região para resolver pendências no consulado italiano; Hymne a L’Amour, para quem se encaminha aos bistrôs das redondezas. E acertou, em relação aos estrangeiros: no balde branco em que armazena o que ganha, entre moedas de R$ 1, duas notas de dólares. “Mas o dinheiro não paga nem o aluguel. Ainda bem que tenho os eventos, vez ou outra…”

Quando vai à Lapa, na praça da Igreja Nossa Senhora da Lapa, toca repertório nacional, músicas românticas da década de 1930. “Lá, é Vicente Celestino e Pixinguinha. Fazem o maior sucesso com o pessoal de mais idade”, conta. “Não esqueço de quando toquei ‘Sempre no Meu Coração’ e um senhor começou a chorar. Chorei junto.”

Em outro de seus pontos, na Alameda Barros, em Santa Cecília, juízes e promotores formam seu público. “Ali, é jazz pesado e muito blues. O negócio fica quente a partir das seis da tarde, quando todos os fóruns e gabinetes estão fechados.”

Além de prezar por repertório específico para cada região, Luciano se preocupa com a roupa que veste – para acompanhar sax e flauta, calça e camisa sociais, gravata, fraque. Sempre. “Todo mundo para e olha para ver de onde vem a música. Se eu for como os outros, perde a graça. Tenho de me diferenciar.” No verão, a gravata amarela, ou a azul. Em dias frios, fraque preto, gravata vermelha. “Vestir-se bem é questão de respeito com quem prestigia.”

Outro de seus pontos é a Avenida Paulista, geralmente na esquina com a Rua Augusta – “um local barulhento”, ele ressalva, “mas que por isso mesmo dá vontade de enfrentar”. “É um desafio. O melhor é ver grupos que passam conversando e que, de repente, apontam para você, param para ver e ficam calados.” É quando Luciano sente que conseguiu vencer, ao menos uma vez mais, de saxofone na boca, a barulheira que a cidade faz.