Frei Miguel Lucas: padre, pintor, escritor, psicólogo, pedagogo…

Estadão

15 de outubro de 2010 | 11h37

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Por Edison Veiga*

*Foto de Paulo Pinto/Agência Estado

“Certa vez, juntaram-se três padres para ver como cada um resolvia o problema dos morcegos em sua igreja. O primeiro disse: “Coloquei os morcegos num saco de plástico, levei-os a 80 km de distância e os soltei, mas quando voltei, lá estavam todos de novo na igreja.” O outro explicou: “Atirei nos morcegos com uma espingarda, mas não acertei em nenhum, só consegui furar o teto da igreja.” O terceiro falou: “Descobri um santo remédio: batizei e crismei os morcegos e todos sumiram, nunca mais apareceram na igreja.”

Frei Miguel Lucas Peña costuma contar essa anedota quando alguém reclama que o movimento nas igrejas católicas já não é mais o mesmo, que os fiéis estão sumindo, que as missas já não atraem tanta gente. E tem a solução. “Devemos entusiasmar as pessoas a seguir Jesus Cristo, encantar a todos”, afirma.

Por isso, missa das crianças, às 11h de domingo, é uma festa na Paróquia de Santa Rita, na Vila Mariana. Festa com mágicas e piadas. As cerca de 300 pessoas que lotam a igreja são cativadas pelo bom humor de Miguel Lucas. Para transmitir suas mensagens, o sacerdote de 74 anos lança mão de humor, truques, pinturas e muita psicologia. “Como diz Santo Agostinho, é preciso ensinar com amor e alegria para sermos ouvidos”, comenta, citando o santo que é fundador da ordem religiosa a qual ele pertence.

Início. Miguel nasceu na província de Burgos, na Espanha. Filho de professores extremamente religiosos, desde cedo tinha contato com a fé cristã. “Gostava das coisas da igreja. Queria imitar o padre em tudo que ele fazia”, recorda-se. Em paralelo, desenvolveu o gosto pelas artes plásticas. Aos 10 anos, seu pai comprou-lhe umas tintas e contratou um professor para ensiná-lo a pintar. Dois anos depois, o jovem Miguel entrava para o Mosteiro de La Vid, abraçando a vida religiosa.

Foi ordenado padre em 1960 – tanto que, entre junho e agosto, esteve na Espanha a fim de comemorar meio século de sacerdócio. Um ano depois, acabou enviado ao Brasil. Atuou em Nova Granada, no interior paulista, até 1973. Desde então, vive na capital paulista.

Múltiplas atividades. Miguel jamais deixou de pintar. Principalmente imagens sacras e figuras humanas. A maior parte de suas obras – cerca de 40, de um total de 200 – está no mosteiro onde ele estudou, na Espanha. O maior quadro, entretanto, fica em sua paróquia: é uma Santa Ceia de 5 metros de comprimento por 3 metros de altura, que ornamenta o altar. “Levei uns cinco meses para concluí-lo”, conta.

Para o sacerdote, entretanto, a pintura não é a única ferramenta que pode ser utilizada para a evangelização. Por isso, em 1975, decidiu cursar Psicologia. Em seguida, estudou ainda Parapsicologia e, há 12 anos, formou-se em Pedagogia. “Já atendi em clínica. Hoje recebo pessoas diariamente aqui mesmo, na igreja”, relata. “Trabalho com logoterapia, ou seja, mostro o sentido da vida.”

Também nos anos 70, resolveu aprender mágica. Truques básicos, como esconder um pedaço de papel sob um copo plástico – e fazer o mesmo reaparecer debaixo de outro copo. Em seu repertório, há mais de 200 brincadeiras assim. “Faço sempre nas missas de domingo, depois do evangelho”, diz. Cada mágica tem uma mensagem religiosa.

Miguel também é escritor. Já publicou 25 títulos – boa parte com tradução para o espanhol. Entre eles estão Um Homem Que Encontrou o Sentido da Vida, Saúde Integral, Como Trabalhar os Sentimentos e o recém-lançado Catequese com Humor, pela editora Paulus. Muitas das obras trazem ensinamentos de autoajuda que o sacerdote difundiu em palestras que fez ao longo de sua vida – em 12 países, como Chile, Argentina, Peru, Paraguai, México, Portugal, Espanha…

Piadas. Catequese com Humor é um sucesso porque o sacerdote aproveita anedotas populares para explicar conceitos religiosos. “Sempre gostei de piadas”, admite, com uma gargalhada – durante as entrevistas, ele soltava uma gostosa risada a cada cinco minutos.

Assim, o religioso tornou-se um padre diferente. Capaz de evangelizar de um modo divertido e atraente. “Padre não é profissão, é vocação”, justifica-se. “Tivesse eu nascido 20 vezes, em todas iria querer ser a mesma coisa: sacerdote agostiniano.” Aqueles que aprendem e se divertem com suas piadas – “Conto-as somente na missa das crianças (domingo, às 11h), mas são os adultos que riem mais” – agradecem.

Versão ampliada de perfil publicado na coluna Que Figura!, do caderno Metrópole, em 13.10.2010.

* Edison Veiga é repórter do caderno Metrópole, do Estadão, e também tem seu blog aqui.

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