Eifuku Nakao, o “Seu Ernesto”, espetador

Estadão

17 de novembro de 2010 | 14h43

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Por Tiago Dantas*

Foto de Daniel Teixeira/Agência Estado

Faz 32 anos que o aposentado Eifuku Nakao, de 80 anos, conhecido como “Seu Ernesto”, teve a ideia de plantar um abacateiro no terreno que fica em frente a sua casa, ao lado de uma das pistas do Aeroporto de Congonhas, na zona sul de São Paulo. Os anos passaram, a árvore ganhou a companhia de um pinheiro, de mangueiras, cerejeiras, rosas, lírios, cactos, de uma centena de outras plantas. Atraiu até pássaros – um novo bosque a partir de um abacateiro, graças ao esforço solitário de Nakao.

“Isso (trabalhar no jardim) é para eu conservar a saúde”, diz o aposentado, que transformou depósito irregular de entulho em um novo jardim, na Rua Almirante Souza Braga. “Tem gente que não acredita, mas acabei com três enxadas e uma cavadeira mexendo aí dentro.” Além de plantar, Ernesto – “apelido sem razão nenhuma, os vizinhos começaram a chamar e pegou” – fez intervenções de engenharia. Utilizou o entulho amontoado no terreno para deixar a área plana e limpa. Depois, cavou valas para a água da chuva correr sem estragar as plantas. Por fim, fez escadas de madeira em um barranco.

Mas o grande trunfo do aposentado está na técnica que desenvolveu para espalhar as plantas pelo terreno. “O pessoal sempre pergunta: ‘De onde vem tanta muda?’ Eu falo que não é muda, nem semente, não. É tudo galho espetado. Sou o maior espetador de galho das redondezas.” O aposentado diz que a maior parte da plantação foi feita simplesmente “espetando”, no solo, pedaços de galhos retirados de outras espécies ou do quintal de casa.

“Agora é bom de espetar. Vem a chuva, e planta pega”, afirma Nakao, que trabalhou no Ceasa e em loja de materiais de construção até se aposentar, em 2003. “Nome mesmo (das plantas), não sei quase nada. Eu só espeto”, diz o aposentado, enquanto caminha pelo terreno apontando para hortênsias, lírios e árvores frutíferas. “Ali tem papaia. É bom pra passarinho comer.”

Filho de pais japoneses, Nakao nasceu em Lins, no interior, mas passou a adolescência na província de Okinawa, onde serviu o exército japonês durante a Segunda Guerra Mundial. Aos 16 anos, ele cavava outro tipo de buraco, completamente diferentes dos que hoje faz, para “espetar” novas plantas. “Fazia buraco para os soldados. Ainda hoje tenho machucados por causa de estilhaços.” De volta ao Brasil após a Guerra, trabalhou numa lavoura em Lins, em ofício semelhante ao que hoje se dedica por hobby, no bosque que criou ao lado do aeroporto.

Tanta dedicação, em breve, pode ser recompensada. A Associação dos Moradores do Entorno do Aeroporto de Congonhas (Amea) planeja que a área verde de quase 23 mil metros quadrados vire um parque. Pouco vai mudar para Nakao: com ou sem reconhecimento público, adiantou, ele planeja continuar no local, espetando galho no chão, esperando “a planta pegar”.

* Tiago Dantas é repórter da Editoria Geral do Jornal da Tarde.

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