Alfred Pallifer e os sonhos encaixotados

Estadão

08 de outubro de 2010 | 17h36

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Por Vitor Hugo Brandalise

*Foto de Márcio Fernandes/Agência Estado

Alfred Pallifer vive em São Paulo há 25 anos. Escolheu a cidade para realizar seu sonho. “É uma cidade grande, cosmopolita, parecia perfeita…”

Alfred é alemão, nascido em Hamburgo, em 1940. Formado em física e matemática na Universidade da Califórnia, trabalhou em multinacionais e, como pesquisador, estudou a tecnologia do laser.

Na década de 1970, cansou dos experimentos, abraçou a teoria e se tornou professor. “Parecia algo mais calmo.” A convite de um colega, chegou à Unicamp, em Campinas, onde lecionou por dois anos – pagavam pouco, mas a estadia na cidade lhe trouxe uma improvável paixão: o alemão passou a torcer pela Ponte Preta. “Foi o que fez valer a pena. Mas ganhava tão mal que decidi abrir um negócio, correr atrás do que realmente queria.”

Afinal, o senhor Alfred, físico experimentalista, matemático, que trocou o Werder Bremen pela Ponte Preta, tinha mesmo um sonho – queria homenagear o que havia de melhor. E lá foi ele: viajou as Américas e a Europa reunindo material, escolheu um casarão na Avenida Brigadeiro Luís Antônio, pintou-o numa imaculada tinta branca e, 20 anos depois de ter chegado à capital, tudo finalmente estava em pé.

Era maio de 2005 quando Alfred inaugurou, no casarão, o primeiro e único Museu do Erotismo de São Paulo – que dividia espaço com a Videolocadora Canal X, especializada em fitas pornô, negócio a que se dedicara depois de abandonar as salas de aula. “Sempre gostei de erotismo, de estar entre mulheres. Vi tantos museus, em Amsterdã, Nova York, Barcelona, que decidi criar um aqui. E ajudaria nos negócios com a locadora.”

Alfred reuniu, em três salas e nos corredores do casarão, cerca de 300 artigos eróticos: esculturas, quadros, cartazes de filmes pornô, objetos de fetichismo e voyeurismo. Também expôs estátuas de gueixas nuas, bonecos incas nas diferentes posições sexuais, cartões eróticos de fins do século 19. Ao redor das peças, 20 mil fitas pornôs, incluindo a coleção brasileira completa de pornochanchada, gênero preferido do alemão.

“Tinha um público cativo, selecionado:engenheiros, médicos, advogados…” Alfred procurou a Prefeitura para incluir o museu no roteiro turístico oficial da cidade, mas concluiu que erotismo não tem espaço na administração municipal. “Os projetos não saíam do lugar. Pensaram que era excentricidade e nunca deu certo. Agora é tarde.”

É tarde, disse Alfred, hoje aos 69 anos. Isso porque o espaço já não existe. O mau momento do mercado pornô – “a internet está matando a indústria pornográfica” – e o pedido do proprietário do casarão para que entregasse o ponto – “outro prédio que sobe…” – levaram Alfred a fechar as portas do museu, no fim de 2008. Hoje, nem a casa existe mais na Brigadeiro nº 2.543. “A maior frustração da minha vida.”

E o físico alemão, após duas décadas dedicadas a um único fim, se viu às voltas com um dilema: que fazer com o Priapus (protetor de quem não consegue bom desempenho sexual), o quadro Marquesa de Rabicú (seu predileto, da década de 1920), com todo o acervo que conseguiu reunir? Ele ainda não sabe responder. A casa noturna do filho, a Sutra, na Bela Vista, é decorada com 30 das peças; outras 15 revestem as paredes da única loja que restou da rede Canal X, na Rua Vergueiro. Todo o resto, ele “prefere nem pensar”.

“Tudo selado, encaixotado, um pouco no meu escritório, um pouco na minha casa”, disse – emendando com outra questão que enfrentou, ao transportar, dois anos atrás, as dezenas de caixas do acervo. Será que ele deveria pendurar as pinturas, decorar o escritório com as figuras que preza? “Não havia lugar. E tudo continua no chão.”

Como na cidade em que escolheu viver, já não há espaço, no escritório de Alfred Pallifer, para expor tudo o que guardou ao longo da vida. “Só espero não ter de jogar tudo em cima de um tapete, para vender numa feirinha de domingo de manhã. Seria triste demais.”

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