A pianista das madrugadas

Estadão

20 de agosto de 2010 | 08h00

Por Vitor Hugo Brandalise

*Foto de André Lessa/Agência Estado

O professor se assustou com o pedido – para que, Deus do céu, repertório de 12 horas ininterruptas no piano, somente com músicas diferentes? “Não tenho tanta variedade”, se esquivou. Mas a dedicada aluna Angela Maria Lovato, de 70 anos, bateu, novamente, a mesma tecla: 12 horas seguidas, professor, preciso de 12 horas seguidas – não tem na internet? O professor ainda está pesquisando.

Angela Lovato, enfermeira aposentada, tem fins nobres em sua exigência. Desde março, ela toca piano noites inteiras na única igreja 24 horas da capital, a Nossa Senhora da Boa Morte, no centro – precisa, enfim, de repertório. “Ainda não chego a duas horas de músicas diferentes, tenho de estudar mais.”

A pianista passa das 20h das quintas-feiras às 5h das sextas na igreja, tocando em volume baixo, “para não ficar mais alto que a reza”. Entre fiéis e membros da comunidade responsável pela paróquia, é chamada de “nossa pianista”. “O que não sabem é que estou aprendendo. Comecei há um ano e meio, sou iniciante”, diz a paranaense que vive em São Paulo desde 1975. “É o melhor lugar para praticar, tocando baixinho, para os poucos que estiverem ouvindo.”

Concentrada nas partituras, Angela mal vê quem forma sua plateia – geralmente moradores de rua, que buscam abrigo na igreja. “Já vieram me agradecer por tornar as noites mais leves. Isso me estimula a enfrentar o cansaço e seguir tocando.”

A vontade de aprender piano – mesmo “na segunda infância”, como chama o momento que vive – veio de uma música específica que há meio século lhe “emperrava a cabeça”: Ave Maria, clássico de Gounod e Bach, que ressoava duas vezes por dia do alto-falante da igreja de Bebedouro, no interior, onde passou a adolescência. “Ficou no inconsciente. Quando comecei a tocar, foi a primeira música que quis aprender. E é também a primeira que toco, toda quinta-feira.”

É a única exceção que ela vai se permitir, aliás, quando conseguir realizar seu sonho. “Mesmo quando souber 12 horas de músicas diferentes, vai haver uma que vou tocar duas vezes.” No começo e no fim, entre as 300 músicas que estima compor o futuro repertório, repetirá Ave Maria.

Versão ampliada de perfil publicado na coluna Que Figura!, do caderno Metrópole, em 20.08.2010.

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