A importância do balseiro

Estadão

25 de agosto de 2010 | 00h00

rodinaldo01

Por Vitor Hugo Brandalise

Parece trabalho simples: conduzir uma balsa em linha reta por 800 metros, a 10 quilômetros por hora, guiada por trilhos que impedem mudanças de rumo. Basta segurar o manete, diminuir a velocidade aos poucos e, em cinco minutos, a travessia está completa. E o serviço terminou – relevante?

Não é pelo trabalho inusitado, o de conduzir uma balsa dentro da cidade de São Paulo. Nem pelo número de passageiros que transporta diariamente – até 1,6 mil, na travessia entre o bairro do Grajaú, no extremo sul da capital, até a Ilha do Bororé, no meio da Represa Billings. O que move o mestre fluvial Rodinaldo Santos da Silva, de 37 anos, é uma disfarçada – e ainda que tímida – sensação: a de que é indispensável.

“Me sinto bem, me sinto importante”, disse o balseiro, numa tarde de terça-feira em que havia conduzido 393 pessoas entre Grajaú e Ilha e vice-versa. “Hoje cedo mesmo, quando uma perua escolar desceu, um garoto colocou a cabeça pra fora e gritou: ‘Obrigado, tio, valeu aí’”, contou Rodinaldo, um dos três encarregados das travessias, que se revezam em turnos. “O que acontece na balsa é minha responsabilidade. Quando alguém agradece é porque fui bem.”

Demonstrações de gratidão são comuns – já recebeu panetone no Natal, champanhe no Reveillon, garrafa de vinho em dia normal – e o deixam orgulhoso. Mas, “importante mesmo” Rodinaldo se sente em emergências: quando alguém precisa alcançar a outra margem por problema médico, acidente de carro, situação policial.

“O pessoal buzina, faz sinal de luz, abana os braços. Do meio da represa, a adrenalina já começa a subir.” Rodinaldo, então, muda a posição do manete do regulamentar “à meia” para um urgente “a toda” – a velocidade sobe a 15 por hora, e o tempo de travessia cai para três minutos.

E não houve dia em que forçou tanto o manete – e em que se sentiu tão importante – como num sábado de 2004, quando um telefonema desesperado lhe interrompeu a rotina: “Não sai da margem, seu balseiro, que a bolsa da minha mulher estourou”. Mesmo quando um policial, logo depois, encostou viatura dizendo para atravessar “imediatamente”, Rodinaldo explicou que tinha outras prioridades. “Não arredei pé enquanto o caboclo não chegou com a mulher.”

Dias depois, recebeu novamente a visita do casal, com a boa notícia de que tudo ia bem – e com um convite que o surpreendeu: o balseiro gostaria de ser padrinho? O garoto Paulo Junior hoje tem seis anos e, toda vez que cruza a represa, pede para subir à cabine, para dar um abraço no “dindo”.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.