Para José Dirceu, campanha eleitoral foi a mais suja até hoje

Estadão

01 de novembro de 2010 | 12h20

O ex-ministro-chefe da Casa Civil José Dirceu classificou a campanha eleitoral para presidência da República deste ano como a mais suja que o Brasil já viu. “Principalmente na Internet e com vídeos pelo YouTube.” Sobre as discussões de campanha, disse que “foi lamentável” e que ações da oposição dividiram o País com a “discussão equivocada” sobre aborto e religiosidade. Segundo sua análise, a utilização desses temas de modo agressivo fez com que o candidato do PSDB perdesse votos em vários segmentos da sociedade.

“Desde 1982 que eu participo como dirigente do PT, como coordenador de campanha, desde 1985 da (campanha) do Suplicy, nunca vi. Acho inclusive que uma das razões do Serra ter caído nas pesquisas foi a campanha que ele fez. Acho que ele perdeu votos da inteligência do país, da juventude, perdeu muito voto de empreendedor, de empresários por uma mistura de populismo e obscurantismo. Acho lamentável que tenha havido essa exploração religiosa no Brasil. Isso é perigoso. Nós não podemos misturar religião e Estado. A religião é da consciência de cada um e todos nós temos formação cristã ou católica ou evangélica. É um despropósito tentar dividir o país a partir da religião.”

A campanha presidecnail ter ido para o segundo turno foi um tormento para o petista. “Esse mês foi o mais longo do ano. Mesmo assim, foi bom para o eleitorado avaliar os governos, as propostas. Os candidatos são diferentes. Serra tem uma proposta para o Brasil, a Dilma tem outra.”

Ele assegurou que não participou em nenhum momento da coordenação de campanha da candidata petista. “Sei qual é o meu lugar no Brasil”, ressaltou o homem que já foi classificado como o mais forte no governo Lula, posição que o projetava para suceder o atual presidente.

Mas denúncias de corrupção e vários escândalos tiraram Dirceu do governo e fez submergir todo o projeto político. Sob a pecha de “corrupto”, o ex-ministro foi citado inúmeras vezes na campanha eleitoral do tucano José Serra, o que ele avaliou como “covardia”. Dirceu queria direito de resposta, o que foi negado pela Justiça Eleitoral. “Uma covardia, né. Porque eu não posso responder. A decisão (do TSE) foi no mínimo equivocada. Eu tenho direito de resposta.”

As acusações sobre seu suposto envolvimento em escândalos de corrupção, observou, não foram fundamentadas. “Cabe a quem acusa provar. Se nós desrespeitarmos isso, nada mais vale no País. Sou inocente, quero ser julgado no Supremo (Tribunal Federal). Em todos os processos julgados até agora fui absolvido. No caso Waldomiro Diniz, foram duas CPIs e dois inquéritos. E em nenhum fui citado”. O caso é de 2004. Diniz , ex-subchefe da Casa Civil para Assuntos Parlamentares e homem de confiança do ex-ministro, foi acusado de negociar favorecimentos em concorrências em troca de propinas.

Em 2011, Dirceu quer resolver as pendências na Justiça e defender-se das acusações no Supremo Tribunal Federal. “Sei que devo contas à Justiça. Não porque sou culpado. Mas isso é da democracia. Agora quero ser julgado. Até hoje fui pré-julgado, linchado.”

A sua volta a administrações petistas, por enquanto, está descartada. A prioridade é “zerar” as pendências jurídicas. Mas tudo pode mudar se for absolvido. “No ano que vem vou continuar como dirigente do PT.”

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