Curso anti-terror de ONG ambiental beira a xenofobia

Estadão

13 de agosto de 2010 | 11h49

Publiquei hoje na edição impressa do Estadão matéria sobre entidade ambientalista ligada a escola de detetives que vende armas e spray de gás pimenta – veja texto mais abaixo. Mas a escola de detetives também dá curso “anti-terror”. Veja como é a introdução desse curso:

Técnicas Anti-Terror

Apresentação em CD/DVD e apostilado. Total de Páginas/Oficio: 175.

Atualmente o terrorismo tem aumentado substancialmente no mundo. Nós da FBI acreditamos que para ajudar a combater o terrorismo, seria de bom alvitre rever as relações com o mundo islâmico. Se for inegável que a pobreza, a ausência de democracia, o neocolonialismo, a arrogância ocidental, o islã, constituem o berço do terrorismo, essas causas profundas só podem ser combatidas em longo prazo, enquanto a ação terrorista exige uma ação imediata.

Alguns que tentam reforçar a segurança para viver como antes, minimizam os riscos, enquanto outros suspeitam que os governantes ocidentais exagerem o perigo para justificar a instauração de uma ordem policial e militar. Essas distorções podem existir e exigem vigilância por parte dos cidadãos. Nosso curso visa ajudar a quem queira aprender técnicas e táticas para colaborarem na erradicação do terrorismo da face da Terra. O curso ensina como investigar suspeitos de ligações terroristas e como prevenir as ações desses animais sanguinários.

Veja também a matéria sobre a organização que defende o meio ambiente e vende armas:

O Instituto Latino-Americano de Proteção Ambiental (Ilapa) se apresenta como uma ONG defensora de causas naturais. Mas vende pela internet produtos que nada têm a ver com natureza: são pistolas para tiro ao alvo, sprays de pimenta, coturnos, camisas camufladas, carteiras e anel folheado a ouro de delegado ambiental do Ilapa.
A pistola custa R$ 1.267. “Para prática de tiro ao alvo. Acompanha legislação para seu porte”, aponta explicação. O spray de pimenta custa R$ 30 o frasco luxo e R$ 15 o simples. “Produto natural orgânico. Não deixa sequelas. Dirigir o jato na direção do rosto do agressor”, ensina o enunciado abaixo de foto. O anel sai por R$ 85 e a carteira, por R$ 15.
O responsável pela ONG é Evódio Eloísio de Souza, apresentado no site do Ilapa como “ambientalista e ferrenho defensor da natureza”. Ele também preside a Federação Brasileira de Investigações, escola de detetives que oferece equipamentos de escuta e cursos de técnicas antiterror, agente secreto, defesa do meio ambiente e até de recepcionista e auxiliar de limpeza.
Ilapa e FBI se confundem. No site da ONG há quatro endereços. A sede social fica na Galeria Boulevard Centro, na Rua 24 de Maio, região central. Lá também fica a sede da FBI. Os outros três locais são apresentados como Departamentos de Fiscalização de Crimes Ambientais 1, 2 e 3. O primeiro fica próximo da Represa Billings em São Bernardo do Campo. O segundo na própria casa de Souza, na zona leste, e o terceiro na Rua Dom José de Barros, com entrada lateral pela mesma Galeria Boulevard.
Sem lucros. Evódio garante que a instituição ambiental não tem fins lucrativos e sobrevive da venda de material aos associados. “Somos mais ou menos 30”, conta ele, que afirma ser “ambientalista desde criancinha”.
De acordo com o presidente da ONG, que se apresenta como advogado e professor de Direito Criminal, desde a fundação em 1994 o Ilapa já denunciou “milhares de crimes ambientais”. Todos teriam sido documentados. Mas, questionado, Evódio não citou sequer um caso denunciado pela entidade ou quem estaria envolvido nele.
Sobre as pistolas, sprays de pimenta e outros produtos vendidos pela internet, primeiro Evódio tentou desconversar, mas depois admitiu a venda e afirmou que “não é nada ilegal”. “É só uma defesa que temos para proteger o meio ambiente”, argumentou, lembrando que já tentaram “acabar” com o Ilapa várias vezes pela atuação de seus integrantes em favor da natureza. “Nossos ativistas não têm remuneração. Vendemos para manutenção da entidade.”
Trinta minutos após a entrevista, feita anteontem, a pistola foi retirada do site de venda do Ilapa. Ontem, o spray de pimenta também sumiu.

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