Vlado
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Gabriel Priolli relembra sua relação com Vladimir Herzog

Edison Veiga

08 Abril 2015 | 04h08

Foto: Acervo Estadão

Foto: Acervo Estadão

Por Gabriel Priolli*

Direção de jornalismo, TV Cultura e crise são palavras que, tradicionalmente, andam juntas. Poucos veículos de comunicação têm um histórico mais atribulado do que a emissora estatal paulista e o epicentro dos inúmeros casos que a envolveram, nos últimos 40 anos, muitas vezes foi o seu combativo departamento de jornalismo. Chefiá-lo sempre foi uma atividade de considerável risco, profissional ou mesmo pessoal. Aprendi isso muito cedo, nos primeiros meses de minha carreira, testemunhando o que aconteceu com o mais célebre de todos os colegas que passaram por aquela cadeira: Vladimir Herzog.

“Vlado” Herzog, como se sabe, foi uma vítima fatal da ditadura militar. Morreu em 25 de outubro de 1975, um sábado, nas dependências do DOI-CODI, o Destacamento de Operações de Informações/Centro de Operações de Defesa Interna, famigerado órgão de repressão política e tortura mantido pelo II Exército na Rua Tutóia, em São Paulo. Morreu poucas horas depois de se apresentar para “prestar esclarecimentos” sobre suas atividades no Partido Comunista Brasileiro, proscrito e perseguido pelo regime. Na versão oficial, teria se suicidado depois de confessar o “crime” de sua militância clandestina. Na vida real, morreu de pancadas, provavelmente num “acidente de trabalho” de torturadores descuidados, que estavam lá para obter informações a qualquer preço, por métodos lícitos ou vis, mas erraram na dose de seu afã investigativo.

A memória de Vlado é cultuada pelos democratas brasileiros desde aquele dia fatídico, mas isso vem sendo feito de maneira mais organizada e consistente com a fundação do Instituto Vladimir Herzog, em junho de 2009. Presidido por seu filho Ivo, à época do assassinato um menino de 9 anos, o instituto lançou recentemente, em parceria com a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, um estojo com a edição facsimilar de todos os exemplares do jornal “Ex”, tablóide da imprensa alternativa que também foi a óbito, justamente pela ousadia de publicar o que ninguém publicou: uma reportagem completa, com mais de 100 mil caracteres (ou mais de 70 “laudas”, na medida da época), sobre as circunstâncias da morte do então diretor de jornalismo da TV Cultura, sob custódia do Estado.

Eu tinha 22 anos de idade e poucos meses de jornalismo quando conheci Vlado. Comecei como repórter na TV Cultura em 1º de abril daquele ano de 1975, a convite do então diretor de jornalismo, Walter Sampaio. Ele era também professor na Escola de Comunicações e Artes da USP, onde eu estudava, e queria ampliar a equipe da emissora. Como não tinha dinheiro para contratar gente tarimbada, deu chance a um grupo de estudantes. Foi assim que, por indicação de meus mestres Paulo Roberto Leandro e Cremilda Medina, também vinculados à Cultura, tornei-me um “foca” e iniciei meu aprendizado simultâneo em jornalismo e televisão.

Começar a carreira profissional em pleno Dia da Mentira revelou-se menos coincidência do que premonição. Foram muitos os episódios inacreditáveis que vivi ou testemunhei, nesta lide ingrata da busca diária da verdade. Mas, quando fazia a minha pauta inaugural, acompanhando o enterro do ex-primeiro-ministro Ranieri Mazzilli, eu ainda não sabia que, muito em breve, experimentaria o primeiro desses episódios. Não sabia sequer que Walter Sampaio já balançava no cargo de diretor de jornalismo da TV e que logo depois, em junho ou julho, seria substituído por Herzog.

Vlado assumiu na TV Cultura e, sei lá como ou por que, também na ECA-USP. Tornou-se igualmente meu professor de telejornalismo e meu chefe. Na escola, a chegada dele não foi diferente da de outros mestres, não causou emoção especial. Mas, na emissora, eu e os demais focas logo percebemos que uma transição de gestão está longe de ser algo tranqüilo. Cabeças da equipe anterior rolaram, novos chefes chegaram, o clima era de apreensão geral. E, como se fosse pouco, a TV Cultura ainda entrou na linha de tiro, tanto dos órgãos de repressão política quanto de simpatizantes da ditadura militar.

Entre estes, havia um jornalista, Cláudio Marques. Fazia comentários políticos na TV Bandeirantes e mantinha uma coluna nos três veículos do grupo Diário do Comércio e Indústria: o próprio DCI e os jornais de circulação gratuita Shopping News e City News. Incomodado com o fato de que o jornalismo da TV Cultura estava agora em mãos de colegas de esquerda, decidiu abrir fogo contra eles. Usando como pretexto reportagens, documentários e até cândidas teleaulas que tematizavam os países socialistas, passou a denunciar a “vietnamização”, a “infiltração comunista” na emissora. Batizou-a de “TV Viet-Cultura” e pôs-se a inocular sua peçonha nas mentes paranóicas, tão comuns naqueles anos.

Ao mesmo tempo, a repressão política iniciava uma ofensiva contra jornalistas militantes do PCB, alguns dos quais, de fato, trabalhavam na TV Cultura, onde faziam noticiarismo, não proselitismo. Paulo Markun, Diléa Frate, Rodolfo Konder, Marco Antonio Rocha, Jorge Duque Estrada, Luiz Weiss, José Vidal Póla Galé e outros foram gozar as delícias da hospedagem no “Tutóia Hilton” – como Cláudio Marques chamava aquele sinistro centro de tortura e morte. Logo eles, nossos colegas do “Pecezão”, que uma boa parte da estudantada da USP considerava um partido conciliador e “bunda mole”, preferindo orientar-se pelas organizações maoístas, trotskistas, socialistas revolucionárias.

Não estranhei, portanto, quando Vlado me chamou à sua sala, no início da noite de 24 de outubro, para dizer que a situação estava se agravando e poderia atingi-lo. “Posso ser preso a qualquer momento, então pegue aqui os trabalhos da sua turma e devolva aos seus colegas”, ele me pediu. “Quando as coisas se acalmarem, a gente vê como faz a avaliação do curso”. Apanhei o pacote, desejei boa sorte a ele e fui embora, direto da redação para Ilhabela, onde passei o final de semana distante de telefone e qualquer meio de informação.

Na manhã de segunda-feira, dia 27, fui direto de casa para a USP, como todos os dias. Ao chegar, me deparei com uma enorme faixa negra com letras brancas, onde li a mensagem aterradora: “Mataram Vlado!”. Foi um susto descomunal, dos maiores que levei na vida. Ouvi rapidamente um relato muito genérico dos colegas sobre o sucedido no final de semana e corri para a TV Cultura, onde encontrei uma redação acéfala, atônita e amedrontada, com o telejornal da hora do almoço por fazer e nenhuma noção sobre se e como deveria fazê-lo.

Soube então que, logo após a minha saída na sexta à noite, chegaram dois agentes policiais, à procura de Vlado. Vinham da casa dele e queriam levá-lo imediatamente ao DOI-CODI. Os jornalistas presentes – Demétrio Costa e Chico Falcão, em especial –, assim como Clarice Herzog, que havia chegado, preocupada com o marido, argumentaram que Vlado não poderia deixar o “Hora da Notícia” naquele momento, tinha de colocá-lo no ar. E negociaram com os agentes a sua apresentação no dia seguinte.

Vlado apresentou-se pontualmente às 8 da manhã do dia 25, acompanhado por Paulo Nunes, que era nosso “setorista” (jornalista dedicado exclusivamente a um setor) no II Exército. Chegou tranqüilo, confiante de que sua posição como diretor numa emissora estatal, a liberação de seu nome no SNI-Serviço Nacional de Informações para assumi-la e o respaldo de seu superior, o presidente da Fundação Padre Anchieta, Ruy Nogueira, seriam suficientes para protegê-lo. Achou que passaria por um interrogatório duro, levaria uns tapas e ficaria alguns dias preso, como sucedia com qualquer “convidado” ao DOI-CODI.

Antes daquele dia terminar, entretanto, Vlado estava morto. Conforme o II Exército, ele teria escrito uma declaração, na qual confessava ser ativista do PCB e renegava sua militância político-partidária. E isso o teria desequilibrado. “Cerca das 16 horas, ao ser procurado na sala onde fora deixado, desacompanhado, foi encontrado morto enforcado, tendo para tanto utilizado uma tira de pano”, disse a nota oficial. “O papel contendo suas declarações foi achado rasgado em pedaços, os quais, entretanto, puderam ser recompostos para os devidos fins legais”.

Fim legal, ali, não houve nenhum. Houve, sim, o fim trágico de um brilhante jornalista, morto sob tortura por agentes do Estado, legalmente responsáveis por sua segurança e integridade. Tanto foi assim que ninguém, nem mesmo gente da ditadura, acreditou na versão do Exército. E que a Congregação Israelita Paulista, chefiada pelo jovem rabino Henry Sobel, recém-chegado ao Brasil, recusou-se corajosamente a enterrar Vlado como suicida, em local diferente dos judeus mortos de causas naturais.

O enterro no Cemitério Israelita do Butantã, no início da tarde do dia 27, que reuniu 600 pessoas, assim como um culto ecumênico na Catedral da Sé, no dia 30, que teve Sobel, o cardeal D. Paulo Evaristo Arns e o pastor James Wright como oficiantes e reuniu mais de 8 mil pessoas, foram os atos semifinais da tragédia. O final foi a decretação da censura prévia ao “Ex”, o jornal “nanico” (como eram chamados os tablóides de oposição) que teve a coragem de contar tudo, sem precisar usar as palavras “tortura” e “assassinato”. Com a censura, recusada pelos editores, morreu também o “Ex” – este sim por suicídio premeditado, em defesa da dignidade do jornalismo.

Por que morreu Vlado? Foi vítima de setores do regime, que combatiam a promessa de abertura política feita pelo General Ernesto Geisel e não queriam saber de “ditabranda”, queriam ditadura mesmo. Mas morreu para eles, filhos ingratos deste solo, desta pátria-mãe nem sempre gentil. Para nós, amantes da liberdade e da democracia, Vlado segue vivíssimo. Para nos lembrar do que houve no Brasil um dia – na verdade, uma longa noite, que durou 21 anos e não pode jamais reviver.

* É jornalista e consultor de comunicação.

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