Visitante nº 382: o dia em que entrei no porão do Masp
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Visitante nº 382: o dia em que entrei no porão do Masp

CRÔNICA

Edison Veiga

28 Março 2017 | 07h09

Foto: Eduardo Nicolau/ Estadão

Foto: Eduardo Nicolau/ Estadão


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Na manhã fria de agosto de 2011 quando eu sabia que estava prestes a entrar em um dos espaços mais restritos de São Paulo, talvez até mesmo do Brasil, eu estava nervoso. Entre mim e Eunice, duas xícaras de café que pareciam infinitas, uma em cada ponta da mesa.

Mais que nervoso, eu transpirava ansiedade.

Eunice, então com 77 anos, parecia calma. Explicava-me as regras.

– Nada de fotos.

Eu assenti com a cabeça.

– Não, não pode detalhar o caminho, publicar como é o trajeto até lá.

Concordei, já me sentindo parte de um enredo de Kafka, já me sentindo protagonista de um suspense de Hollywood, já praticamente inserido dentro de um estranho mundo imaginário encenado em palco de teatro alternativo.

Eunice Sophia, museóloga, uma senhora difícil como o cargo exige, mas simpática como a personagem sugere, era – deve ser ainda – a coordenadora do acervo do Museu de Arte de São Paulo.

O Masp.

Masp a gente fala com a boca cheia, indisfarçável orgulho paulistano. Porque é museu dos grandes, que ostenta obras de artistas mundialmente relevantes. Porque é museu dos lindos, que ocupa um prédio por si só relevante – os traços de Lina Bo Bardi, o vão livre único, o cartão-postal que atesta uma São Paulo que venceu o provincianismo para adentrar ao cosmopolitismo. O Masp é, sim, a metonímia de como a nossa caipirice original se tornou ostentação mundial, de como ganhamos voz e força, de como quisemos e queremos ser admirados pela cultura. O Masp é a Avenida Paulista, o moderno, o frenético. É o completamente oposto ao Teatro Municipal, ao centro velho do Viaduto do Chá.

O sonho de conhecer a reserva técnica do Masp, um dos maiores segredos do museu, já vinha de alguns anos. Quando imbuído de ideias fixas, sou quase insolente.

Depois de muita negociação e pedidos de autorização para lá para cá, houve o café com Eunice. Seguido por um crachá vermelho onde se lia, em letras garrafais:

VISITANTE ACERVO.

Afixei-o com orgulho à altura do peito, lado esquerdo. Sobre minha puída camisa acinzentada, o vermelho complementava uma rima plástica com as próprias cores do Masp. Ao colocar aquele crachá, até passei a andar com o peito mais estufado. Aquele crachá foi minha medalha. Aquele crachá era meu passaporte para um universo paralelo do mundo da arte.

Aos poucos, nervosismo e ansiedade foram transformados em excitação, apenas. Eunice me mostrou o caminho. Antes havia uma outra recepção.

– Nome? Telefone? RG? Empresa?

Nem bem terminei de passar os dados, minha cicerone quis frisar o que já fora dito:

– É um cofre. Fechado. Ali estão as obras descansando, para serem preservadas. E nada de fotos lá dentro.

Eunice é dona de uma biografia toda devotada ao Masp. Para ela, é como se cada quadro de Picasso, cada escultura de Degas, cada quinquilharia kitsch de Olney Krüse, enfim, cada um dos 8 mil itens do precioso acervo tivesse vida própria. E, vai ver, tem mesmo, ela deve estar certa.

As obras descansam quando não estão em exposição, quando não estão sendo vistas.

Todo descanso é merecido.

O percurso para chegar até a imensa sala-cofre eu jamais revelarei. E não só porque me comprometi com Eunice, mas também porque seria impossível relembrar cada trecho labiríntico do subsolo da instituição. Um caminho cheio de fechaduras, curvas e câmeras de segurança.

Sempre houve preocupações, evidentemente, com o acesso à coleção. Mas os cuidados aumentaram muito depois que, em dezembro de 2007, ladrões entraram ali e furtaram do acervo bilionários quadros de Picasso e Portinari.

Passei por quatro portas. A última era como a entrada de um cofre gigante.

Engoli em seco. Disfarcei o leve umedecimento dos olhos.

Eu estava dentro de um espaço único, de 600 metros quadrados, um recinto cujas paredes são espessas, à prova de quase tudo. Por meio de um jogo de espelhos, de um vértice um vigia consegue olhar para todo o perímetro da sala.

Eunice parecia feliz.

– Se eu pudesse, traria mais gente aqui. Tenho muito prazer em mostrar a reserva. É uma maneira de valorizar a coleção, conscientizar as pessoas da importância disso.

Ali dentro, ela arrancou sem pudores a máscara da sisudez. Entre um quadro e outro, contou que se apaixonara pelo Masp quando era criancinha e ia com a mãe ao museu – que, então, ainda funcionava em um espaço um tanto improvisado em prédio da Rua 7 de Abril, já que o icônico edifício da Paulista só seria inaugurado em 1968.

– Mas, você sabe, só posso trazer gente aqui com a autorização por escrito da diretoria.

Fiquei ali mais de uma hora. Eunice me mostrou os 13 Renoirs, os 11 Toulouse Lautrecs, as 73 esculturas do Degas, os 4 Picassos. Disse que tudo estava informatizado, ultimamente, mas ela gostava de se saber um catálogo vivo da instituição, a pessoa que conhece exatamente onde está cada obra, tudo sem precisar consultar computador algum.

– Também tenho tudo anotado no papel. Porque confio mais no velho lápis – afirmou, visivelmente descrente das novas tecnologias tão propensas aos erros de sistema.

Apontou para um Matisse – O Torso de Gesso, de 1919 – com a intimidade de uma velha amiga. E era mesmo.

Foto: Acervo Masp/ Reprodução

Foto: Acervo Masp/ Reprodução

– Uma vez fui acompanhá-lo a uma exposição nos Estados Unidos. Todos comentavam que era a obra mais bonita da mostra.

Com a fundamental ressalva de que “gosto pessoal não deve ser usado para julgamento artístico”, também me mostrou o que não gostava do acervo: um quadro feito por Romero Britto em comemoração aos 450 anos de São Paulo.

Na hora da saída, Eunice me mostrou o livro que estava ao lado da porta principal. Desde que a sala-cofre havia sido inaugurada, era praxe que todos os visitantes assinassem ali. Pus meu nome e, em seguida, olhei para a sequência histórica. Número 382.

Antes de mim, apenas 381 pessoas tinham pisado na restrita, rara e incrível reserva técnica do Masp.

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