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Vida em apartamento: mudanças ao longo do tempo

Arquitetos do escritório FGMF comentam a evolução das unidades, década a década

Edison Veiga

14 Novembro 2015 | 16h01

Foto: Tiago Queiroz/ Estadão

Foto: Tiago Queiroz/ Estadão

Por Fernando Forte, Lourenço Gimenes e Rodrigo Marcondes Ferraz*

Década de 60

Havia uma cultura que reprimia a moradia em prédios, tratava-se de um momento no qual os edifícios que eram criados precisavam romper com essa resistência.

Existia ainda uma herança da década de 50, com os pés direitos mais altos. Neste momento, surgiram em vários imóveis a ideia de janela piso-teto, parte do desenvolvimento de experimentos modernistas em décadas anteriores. As varandas não existiam e as que haviam eram pequenas, já as cozinhas eram grandes em relação as dimensões dos apartamentos. As dependências de empregados eram consideradas cômodos mais robustos e azulejados. O que foi carregado por muito tempo em nossa arquitetura, como uma espécie de herança das casas espaçosas brasileiras. Os quartos eram quase sempre com uma suíte e os demais dividiam o banheiro. A essa altura eram raros os apartamentos com mais de 3 quartos. Ainda em 60, as plantas eram geralmente retangulares, amplas e bem resolvidas. Havia uma baixa preocupação com o uso das áreas comuns, apesar de exemplos notórios da década anterior como, por exemplo, o edifício-clube Bretagne e outras construções de Artacho Jurado. Outro ponto comum mesmo em apartamento não tão grandes, era a duplicação da circulação interna, possibilitando uma passagem para as empregadas domésticas, que ligava a cozinha, a lavanderia e os quartos, sem que o funcionário tivesse que passar pela sala. O que denotava um desperdício de espaço, mas mais um ponto de uma herança retratada nas grandes casas da época.

Década de 70

Em 1970, ocorreu uma mudança no tamanho de pé direito, que passaram a ser menores. As janelas e afins passaram a partir dessa década por um processo de industrialização, o que levou, em uma redução no tamanho das janelas e trouxe a difusão do uso de alumínio. As cozinhas começaram a diminuir um pouco em relação as dimensões gerais do apartamento e ainda existiam as dependências de empregados, que passaram por reduções consideráveis, além de adaptações preocupantes como, por exemplo, algumas construções que traziam na dependência de empregados o chuveiro elétrico praticamente em cima do vaso sanitário e coisas do gênero. O baixo uso das varandas se manteve e as que existiam se tornaram ainda menores. Os quartos continuavam trazendo suíte e os demais dividiam o banheiro, ainda em 70 eram raros os apartamentos com mais de 3 quartos. As plantas se mantinham retangulares, razoavelmente amplas e bem resolvidas.

Em meados dessa década surge com mais força o que foi chamado por aqui de “estilo mediterrâneo” e perdurou por um bom tempo na arquitetura predial. São os chamados prédios com quinas curvas, muitas vezes transportadas para dentro dos cômodos, com janelas menores, e por muitas vezes arredondadas. Se manteve a baixa preocupação com o uso das áreas comuns, porem esses cômodos aparecem nos prédios com mais intensidade. É neste momento que começam a aparecer as quadras poliesportivas, os parques e as piscinas.

Década de 80

Já na década de 80 os pés direitos são reduzidos para as dimensões atuais e surgem os forros de gesso em diversas áreas dos apartamentos, sobretudo em banheiros e cozinhas, facilitando instalações hidráulicas e reformas. Ainda persiste a existência de dependências de empregados, mas em dimensões insustentavelmente pequenas. Surgem também os apartamentos com múltiplas suítes e se torna mais comum o apartamento de 4 dormitórios. No fim dos anos 80 surge o conceito de “home theater” muitas vezes inserido no 4º dormitório. E com essas alterações ressurgem varandas, mesmo que as vezes bem pequenas e em quartos.

A cozinha é segregada dos outros espaços dos apartamentos e existe um aumento na preocupação do uso das áreas comuns. Surgem piscinas, quadras poliesportivas, salões de festas e etc.

Nessa década, aparecem cada vez mais suítes e nos deparamos com o aumento na quantidade e dimensões do conceito de “closet”. Em geral, as dimensões dos apartamentos diminuíram, mas o programa continua sendo basicamente o mesmo, inclusive com mais quartos e banheiros. O que piora as plantas, já que neste caso os ambientes ficam ‘espremidos’ entre si. É o que traz à tona apartamentos menores, mesmo para classe média alta.

Década de 90

Surgem plantas com chanfros nos apartamentos. Plantas com ângulos inesperados que se refletem na volumetria da edificação, mas que engessam o espaço interno, obrigando algumas peças do mobiliário interno a serem feitas sob medida e impedindo a reforma fácil do lay-out. Em 1990, existe a proliferação dos vidros e caixilhos bronze, além dos revestimentos de tijolinho ou arenito e forros de madeira em sacadas. Ressurgem as varandas e em meados da década de 90 aparece o conceito de varanda gourmet, que toma grande força nas décadas seguintes.

Também temos o aumento no número de suítes e banheiros e persistem as dependências-micro de empregados. Porém aparecem as plantas que não trazem essas dependências ou apresentam a planta ‘reversível’, ou seja, que podem ser reformadas para outro uso. Surge também o conceito de home office, sobretudo com a disseminação dos computadores pessoais e o surgimento da internet.

Os quartos passam a ter suas dimensões reduzidas e os closets viram default para a maior suíte do apartamento. Existe ainda uma grande preocupação com a área comum e chega ao mercado a ideia dos megacondomínios – várias torres com uma só área comum superequipada. Trata-se de um momento de grande preocupação com a violência urbana e os condomínios enxergam uma forma de conquistar muitos clientes, considerados mais afoitos e preocupados com o cenário da segurança. Surgem as guaritas de segurança, portões duplos de segurança e outros aparatos. O “estilo neoclássico” se dissemina por grande parte das construções de SP no final da década, tomando o lugar das plantas com chanfros e quinas.

Década de 2000

Se dissemina o conceito de varanda gourmet e home theater alcança sua glorificação no começo da década. Por conta de uma possível distorção no zoneamento de São Paulo (uma forma das incorporadoras construírem mais), surge no final da década os apartamentos com megavarandas, que passam na década seguinte a serem fechadas, para que os apartamentos sejam ampliados. O estilo “neoclássico” é praticamente o padrão do mercado (com, é claro, interessantes exceções) Há uma enorme preocupação com áreas comuns. Surgem até curiosidades como as chamadas “praça da babá”, “sala do cabeleireiro”, entre outros.

As plantas não trazem mais as dependências de empregados, mas quase sempre existe o banheiro destinado aos funcionários. A questão das suítes continua, mas os apartamentos diminuem drasticamente de tamanho. Os quartos especialmente, tem suas dimensões reduzidas para tamanhos jamais imaginados em décadas anteriores. A possibilidade de cozinha aberta para a sala passa a ser oferecida em planta.

Aparece, no final da década o conceito dos “studios” que são algo parecido com as quitinetes dos anos 50, mas com outra roupagem e normalmente, varanda. Surgem diversos usos para a área comum dos prédios, a fim de suprir questões dos apartamentos pequenos.

Atuais

Dos anos 2000 para os dias atuais ocorreu uma mudança na estrutura familiar. Trata-se de um momento, no qual as pessoas passam a ter menos filhos, os divórcios se tornam comum e casar pela segunda vez é um passo comum. O que fez com que muitas pessoas passassem a viver sozinhas e casais passaram a conviver sem filhos. O conceito de família traz um número reduzido de pessoas e também se tornou um fator que acarretou na diminuição do programa dos apartamentos. Neste momento, surgem os lofts, os studios e os quartos reversíveis, a fim de flexibilizar as plantas. A área social do apartamento fica proporcionalmente maior em relação à área dos quartos e os imóveis passam a incorporar cada vez mais tecnologias, como os sistemas de automação de iluminação, som, aspiração central, grandes talas de TV, fechaduras biométricas e etc.

Os dias de hoje oferecem apartamentos cada vez menores. O estilo “neoclássico” desaparece e o quarto de empregados volta a ser uma possibilidade em apartamentos maiores. Muitas vezes a área de serviço é unida a cozinha, que por sua vez é aberta para a sala. Para apartamentos de 2 ou mais quartos, um dos quartos é oferecido pela construtora como “reversível” para aumentar a sala que tem dimensões muito reduzidas. Enfim, a varanda gourmet se consolida.

Os apartamentos diminutos aumentam dia a dia de número e batem seus próprios recordes, considerando a medida de 19m², mas ainda existem lançamentos de 14m², o que pode ser comparado ao tamanho de uma van. Isso acontece pela elevação do valor dos terrenos e do custo da construção (principalmente da mão de obra). Com a renda da população estável ou diminuindo, a alternativa das pessoas é morar em espaços cada vez menores. Os juros exorbitantes do país também não ajudam em nada, já que encarecem e dificultam muito os financiamentos, aumentando o custo das unidades. Por fim, se há um lado ruim nesse fenômeno, há talvez um lado bom, que a conscientização das pessoas com relação aos espaços públicos da cidade. Se antes cada um só se preocupava com o interior de sua própria casa, agora morando em mini-apartamentos as pessoas precisam usar mais espaços da cidade, o que demanda uma qualidade nos espaços públicos.

* Os arquitetos são sócios do escritório FGMF.

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