Vendendo m… enlatada no metrô
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Vendendo m… enlatada no metrô

A incrível história de um operário que "inventou" um negócio nos anos 1970

Edison Veiga

17 Junho 2015 | 13h33

Foto: Divulgação

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Por Laurindo Martins Junqueira Filho*

Severino era um tipão saudável. Havia recebido o apelido Paraíba ao chegar a São Paulo, em 1973, quando ainda rolavam os anos de chumbo. Aconselhado por um primo, procurou logo um emprego nas obras do metrô. Bem atendido, foi trabalhar de servente de pedreiro no trecho central da linha. Estranhou apenas ter que fazer exame de fezes, coisa que jamais veio a entender a razão. Mas passou em todos os testes e logo estava empregado e feliz da vida.

Severino morava numa pensão no Glicério. Já no segundo mês, procurou as Casas Bahia e comprou uma bicicleta. E não era qualquer magrela, não, já que aquela tinha espelhinho, campainha e fitas de plástico laterais nos dois guidões. Só não comprou farolete porque saia um pouco caro… Ah! Mas tinha um bagageiro, onde pensava em adaptar um rádio Transglobe, daqueles bem grandes, que tocavam alto e permitiam ouvir até as emissoras da sua terra natal.

Bem sucedido, Severino Paraíba contou por carta aos parentes todos os detalhes do novo emprego, pedindo que continuassem a rezar por ele. Juntou até uma foto polaroide tirada por um amigo, em que que aparecia de óculos escuros e montado na magrela.

Semanas depois choveram cartas de primos e agregados. Todos queriam o caminho das pedras para arrumar uma boquinha no metrô. Passado pouco tempo e lá estavam três primos e um amigo, o filho de Dona Chiquinha, comadre de sua mãe. Arrumaram-se todos estendidos no chão do quarto pequeno que Severino alugava na pensão, a contragosto da dona, uma portuguesa desbocada. Dia seguinte à chegada, foram todos para o canteiro de obras do metrô em São Bento, para se apresentarem ao encarregado. Sem muitas perguntas, foram encaminhados para o processo seletivo. E todos, de novo, tiveram que passar pelo ato, risível para eles, de ter que fazer o bendito exame de fezes. Àquela época, o metrô cedia os recipientes, para não ter que receber aquelas latinhas de pastilha Walda, sem higiene alguma. Fizeram o exame e… não passaram.

O metrô lhes deu uma chance: poderiam repetir o exame. Fizeram isso e foram todos reprovados de novo. O metrô recomendou-lhes que procurassem um médico para curar as parasitoses.

– Parasitose? É lombriga mesmo, cabra! – disse Severino para os quatro.

Um dos primos desistiu “daquele exame mais besta” e foi trabalhar em um prédio em construção no centro. Enciumado e ganhando menos, ele dizia que lá na obra dele não se exigia essas “frescuras”. Os demais ficaram no aguardo de novas oportunidades.

Um mês depois, mais outros agregados de Severino estavam chegando para buscar emprego no metrô. Matreiro que era e já quase malandro na cidade grande, Severino resolveu inovar no exame de fezes da nova leva de amigos. Inventou um expediente “genial”: preenchia as latinhas que eram dadas aos candidatos a emprego não com as fezes próprias deles, mas com as suas próprias. Como já havia passado nos exames, estava ali pronta e estabelecida uma forma garantida de fazer aprovar os “seus” amigos candidatos ao rigoroso exame do metrô.

Dizem que sete em cada dez brasileiros sempre tenta abrir um negócio próprio. Severino era certamente um deles.

Tendo dado certo com os primos, o expediente passou a render-lhe um tutuzinho a mais nos ganhos. Severino transformou-se em “próspero negociante” de vender “m… enlatada”, na visão de seus parentes da Paraíba, às vezes formando-se até mesmo uma fila diante do banheiro do cortiço em que morava.

Quem contou esta história foi o Humberto, que conheceu Severino em pessoa e garantiu enfaticamente que foi daí que surgiu a expressão famosa, que hoje corre mundo.

*Laurindo Martins Junqueira Filho trabalha no Metrô desde 1973.

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