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Valorização do patrimônio histórico na cidade de São Paulo: missão possível?

Em artigo, a presidente do Conpresp e diretora do DPH explica importância da Jornada do Patrimônio

Edison Veiga

17 Novembro 2015 | 07h10

Foto: Tiago Queiroz/ Estadão

Foto: Tiago Queiroz/ Estadão


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Por Nadia Somekh*

Nas cidades contemporâneas, onde a velocidade das transformações urbanas e sociais fragmentam os laços comunitários, o papel do patrimônio histórico se reveste de nova importância para o fortalecimento da identidade de seus cidadãos.

A cidade São Paulo, embora pautada pelo binômio construção-demolição, é rica em história. E todos os períodos são igualmente significativos: a São Paulo vila e entreposto comercial de casas de taipa; a cidade imperial onde foi dado o grito de independência do Brasil e onde a Marquesa de Santos mantinha seu solar, imóvel hoje parte do Museu da Cidade, da Prefeitura de São Paulo; a cidade pujante que surgiu com o dinheiro do café e logo se tornou uma metrópole moderna, com suas fábricas e operários; e por fim a cidade modernista, com seus edifícios racionais, pensados para os novos tempos que chegavam.

Todos esses momentos são igualmente significativos para a constituição da memória da cidade, cuja secretaria municipal responsável pela preservação é a de Cultura, por meio do Departamento do Patrimônio Histórico (DPH). Mas a preservação é um dos maiores desafios em uma metrópole que se identifica mais com a mudança do que com a permanência, mote contido na frase a “Cidade que não pode parar”, slogan de ideologia desenvolvimentista que colou no imaginário paulistano, para o bem e para o mal.

No contexto contemporâneo, onde o consumo se torna um valor máximo e a memória, apesar de mais importante do que nunca, passa para o segundo plano (ou terceiro, ou quarto…), a preservação do patrimônio se torna um desafio ainda maior. Pois não é de outra forma senão pelo interesse, preocupação e demanda dos cidadãos que a política para esse setor pode se fortalecer. Nesse sentido, é mais do que necessária a militância e o olhar atento de pesquisadores como Paulo Rezzutti, do Instituto Histórico e Geográfico do Estado de São Paulo, que recentemente publicou um artigo neste espaço intitulado “Memória seletiva, patrimônio sucateado”. Apesar do título com o qual não concordamos, o texto traz observações pertinentes sobre a preservação do patrimônio paulistano.

Pelo espaço limitado e pelo fato de as outras críticas já terem sido respondidas em uma matéria recente, “Solar devolve bens de Domitila à USP”, o DPH vai utilizar seu direito de resposta para comentar a observação que Rezzutti faz ao final do texto sobre a recente iniciativa deste departamento de conduzir nos próximos dias 12 e 13 de dezembro a primeira Jornada do Patrimônio paulistana. Segundo o pesquisador, faz pouco sentido conduzir tal tipo de evento em São Paulo, mas faz todo sentido fazê-lo na França, onde as Journeés du Patrimoine ocorrem desde 1983. Seus expressivos resultados se expandiram por toda a Europa, razão pela qual o DPH decidiu reproduzir a iniciativa aqui, além dos os benefícios econômicos e de promoção do turismo que se espera obter para além da valorização do patrimônio em si.

Ao refletirmos sobre a relação dos cidadãos paulistanos e parisienses com seu patrimônio histórico, apesar de uma Jornada do Patrimônio – evento no qual a população está sendo convidada a reconhecer seu patrimônio e a participar dos roteiros de memória que serão conduzidos pela cidade – fazer sentido em qualquer lugar, ela talvez faça mais sentido aqui do que lá. Explico: enquanto naquele país europeu os desafios da preservação estão satisfatoriamente equacionados, há muito ainda o que fazer por aqui, e envolver o cidadão por meio de uma celebração como a Jornada nos parece um dos caminhos mais promissores para mudar a situação do patrimônio.

O cidadão que reconhece sua história e seus bens culturais estará em melhores condições de cobrar das administrações municipais sua preservação, via orçamento participativo, manifestações na imprensa ou por meio de um ativismo urbano contemporâneo. Além disso, com essa valorização, o mercado imobiliário será cada vez mais pressionado a incorporar em seus projetos as preexistências, ou seja, aproveitar, por exemplo, aquela casinha ou a fábrica do início do século 20 em projetos de qualidade arquitetônica, em vez de arrasar com tudo e partir do nada, como se a história não importasse.

Esses novos cidadãos, com sua autoestima renovada, detentores de um vínculo sólido, compartilhado, serão mais fortes para garantir que São Paulo continue crescendo, mas com sua história lastreando seu futuro, não de costas para ela. Essa nova cidadania se somará às já existentes iniciativas de associações como a Preserva São Paulo, o Centro de Preservação Cultural da USP (CPC-USP), a Rede Paulista de Educação Patrimonial (Repep), o blog São Paulo Antiga, as recém-nascidas associações de proprietários de imóveis tombados, os inúmeros pesquisadores e entusiastas como Paulo Rezzutti, que não se calam diante da ameaça à sua memória, e por fim o DPH, o maior interessado na preservação do patrimônio da cidade. Quem sabe no futuro tenhamos massa crítica para que a preservação do patrimônio amplie seus recursos humanos e financeiros. Seria o começo da realização de um sonho.

P.S. Estamos ansiosos para oferecer à população, durante a Jornada do Patrimônio, a possibilidade de participar do roteiro de memória “A São Paulo da Marquesa de Santos”, idealizado e inscrito no evento pelo mesmo pesquisador Paulo Rezzutti para o qual este texto é uma resposta. Paulo, você, como todos que se inscreveram com boas ideias (no seu caso, excelente) para a Jornada, são muito bem-vindos. Amigo não é quem que nos esconde as verdades duras, mas quem nos ajuda a superar nossas limitações.

P.P.S. Em artigo recentemente publicado no portal Vitruvius, apontamos a necessidade de ir além dos instrumentos do tombamento e do inventário de bens culturais – que. embora importantes, são apenas o primeiro passo da proteção.

* Nadia Somekh é presidente do Conpresp e diretora do Departamento do Patrimônio Histórico (DPH). Doutora pela FAU-USP, é professora do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie.