Ursos-polares reabrem polêmica sobre cativeiro
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Ursos-polares reabrem polêmica sobre cativeiro

Aurora e Peregrino vieram da Rússia e chegaram em dezembro ao Aquário de SP; ONG faz protestos e pede que animais sejam soltos

Edison Veiga

30 de maio de 2015 | 16h00

Foto: Sebastião Moreira/ EFE

Foto: Sebastião Moreira/ EFE


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Chamam-se Aurora e Peregrino os dois únicos ursos-polares (Ursus maritimus) do Brasil. Vivem no Aquário de São Paulo, no Ipiranga, desde dezembro. Nem bem foram apresentados ao público, em 14 de abril, passaram a atrair, além do público ávido por novidades do gênero, a atenção de ativistas. No caso, a ONG Aliança Internacional do Animal (Aila) que, pelo menos uma vez por semana, tem colocado manifestantes em frente ao endereço – munidos com cartazes e megafone, pedindo que os ursos sejam devolvidos à natureza.

“Estamos nos preparando para processá-los. Eles estão querendo denegrir nossa imagem”, afirma o proprietário do Aquário, Anael Fahel. “Por que não vão protestar também lá no Zoológico, onde tem leão, girafa e tantos outros animais selvagens?”. A fundadora da Aila, Ila Franco, diz que “mesmo com a melhor das intenções, jamais o Aquário poderá dar o mínimo para as necessidades do animal”. “Não é correto ensinar as pessoas que é normal e educativo confinar animais selvagens, exóticos ou outros em cativeiro”, diz ela. “Logo ficarão doentes e fatalmente morrerão.”

Foto: Nilton Fukuda/ Estadão

Foto: Nilton Fukuda/ Estadão

As negociações para a vinda de Aurora e Peregrino foram iniciadas há mais de um ano. Eles chegaram em dezembro, sob empréstimo, de um zoológico russo (mais informações no infográfico abaixo). Fahel precisou cumprir uma série de exigências burocráticas e técnicas para viabilizar o processo. No Brasil, é o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis que normatiza a construção de recintos para animais em cativeiro. Esses espaços são avaliados por uma comissão da Secretaria do Meio Ambiente do Estado, no caso de São Paulo. “O Aquário de São Paulo entregou todas as documentações pertinentes e adequou suas estruturas”, confirma a veterinária Carolina Lorieri Vanin, coordenadora de Biodiversidade e Recursos Naturais do Centro de Fauna Silvestre em Cativeiro do Centro de Fauna Silvestre da Secretaria. “A partir de uma vistoria realizada pela equipe técnica do Departamento de Fauna do Estado de São Paulo, foram averiguados: o recinto, o cambiamento, a maternidade, a segurança do estabelecimento manter essa espécie, o manejo dos animais, o manejo sanitário e o manejo nutricional para a acomodação da espécie. Sendo que as dimensões do recinto que aloja os dois exemplares de Ursus maritimus são maiores do que as exigidas pelo Ibama.” O espaço de Aurora e Peregrino mede 1,5 mil metros quadrados, enquanto a norma pede 300 metros quadrados por casal.

Inaugurado em 2006, o Aquário de São Paulo não tem só peixes – como o nome parece indicar. Ali vivem morcegos, pinguins, cangurus, suricatos, cobras e até uma preguiça. Hoje são cerca de 250 espécies diferentes. A instituição emprega 36 profissionais apenas para o manejo dos bichos, entre biólogos, veterinários e tratadores, além de 22 educadores ambientais. Profissionais que atuam em outras instituições do gênero costumam elogiar a maneira como os animais são tratados no Aquário.

Cativeiro. Os protestos atuais têm os ursos-polares como alvo, é verdade. Mas os argumentos não são novos. O discurso que pede a reintegração dos animais à natureza e, em última instância, o fim de instituições como zoológicos e afins, entende que o ser humano não tem nenhum direito sobre outros animais. “Críticas sempre vão existir. A ação em si de manter animais em cativeiro traz benefícios à natureza, à medida que há espécies que foram salvas da extinção porque populações em cativeiro se reproduziram e foram reintroduzidas. Mas também é legítimo o argumento de que todos os animais têm direito à vida em liberdade e não cabe ao ser humano fazer nada com eles, nem por eles”, contextualiza o etólogo Mateus Paranhos da Costa, especialista em bem-estar animal e professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Os recinto de Aurora e Peregrino conta com neve artificial, temperatura e luz controladas de forma a serem semelhantes à natureza e muita água – no caso, cerca de 1,1 milhão de litros. De acordo com especialistas brasileiros e russos – que ficaram em São Paulo por 10 dias acompanhando os animais, quando estes chegaram –, a adaptação do casal às novas instalações foi rápida e bem-sucedida.

“No cativeiro, os bichos encontram pressões diferentes das vividas na natureza. Por isso, é comum surgir apatia generalizada ou vícios comportamentais. As instituições buscam minimizar isso, usando o que chamamos de ‘enriquecimento ambiental’, ou seja, levando para o recinto fechado elementos próximos dos encontrados na vida livre, garantindo assim uma melhor qualidade de vida aos animais”, explica o etólogo da Unesp.

“Tradicionalmente os zoológicos sempre foram considerados locais para a exposição de animais vivos que tinham como objetivo maior o entretenimento”, diz o veterinário Paulo Magalhães Bressan, presidente da Fundação Parque Zoológico de São Paulo. “Atualmente, a nova missão dos zoológicos desmistifica o paradigma do antigo conceito de ‘museu vivo’. Hoje, eles são encarados como um grande aliado para as estratégias de conservação da biodiversidade, para que junto com os tomadores de decisão seja estabelecida a política pública da gestão da fauna e biodiversidade nos Estados e no Brasil.”

(Clique para ver o infográfico de forma ampliada)

(Clique na imagem para ver o infográfico de forma ampliada)

Reprodução. No caso do Aquário, mesmo sendo uma instituição privada, há compromissos semelhantes. “Claro que há o entretenimento, mas ele traz consigo a educação ambiental”, pontua a veterinária Laura Reisfeld, uma das que trabalham ali. “Aqui dentro realizamos estudos, que muitas vezes são utilizados por quem pesquisa a vida livre. E temos muitas parcerias”.

A instituição ajuda, financeiramente e com equipe técnica, projetos que ajudam a melhorar a qualidade das populações livres de peixe-boi, tamanduá e lontra no País. E, no cativeiro, tem conseguido reproduzir muitos exemplares. Os morcegos, por exemplo, eram um grupo de seis – hoje são 18. Os cangurus chegaram há pouco mais de um ano e já têm dois filhotes. E há suspeitas de que Aurora, a urso-polar fêmea, esteja prenhe – o que significa que, em breve, pode nascer o primeiro urso polar em solo brasileiro. O casal copulou em janeiro. Se vierem filhotes por aí, uma maternidade já está pronta, anexa ao recinto.

Ila Franco, a fundadora da Aila, afirma que “nunca critica sem dar soluções viáveis” e que já conseguiu vaga para Aurora e Peregrino em uma organização europeia que mantém animais do tipo em reserva, com ambiente que muito “se aproxima do hábitat natural desses animais”. O proprietário do Aquário, por sua vez, é categórico. “Qualquer animal de nossa instituição está disponível para participar de projetos de soltura, desde que sejam responsáveis”, diz.

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