Uma lembrança de Ruy Mesquita
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Uma lembrança de Ruy Mesquita

ARTIGO

Edison Veiga

15 de abril de 2016 | 03h28

Foto: Filipe Araújo/ Estadão

Foto: Filipe Araújo/ Estadão

* Por Edison Loureiro

Em outro artigo aqui eu já contei sobre a Biblioteca Infantil Monteiro Lobato e seu jornalzinho A Voz da Infância, que costumava frequentar no começo da década de 1960. Pois foi numa tarde do ano de 1963 que estávamos sentados à mesa da “redação” do jornalzinho discutindo qual seria a pauta do próximo número. Sim, a coisa era levada a sério, por mais que possa parecer brincadeira três meninos e uma menina no começo da adolescência fazendo reunião de pauta.

Ninguém estava muito inspirado naquela tarde calorenta até que eu dei a ideia:

– E se contássemos como se faz um jornal de verdade?

– Como vamos fazer isso? Perguntou Maria Tereza, companheira de redação e de traquinagens nas outras seções da biblioteca.

– Ora, simples. Aqui pertinho está o jornal O Estado de S. Paulo. É só ir até lá e pedir para fazer uma visita. Só precisamos de algum documento que mostre quem somos.

Para mim tudo era sempre muito simples e nós nos achávamos muito importantes.

E lá fomos nós apresentar a ideia para a dona Regina, orientadora da seção, que logo ponderou que uma visita dessas teria que ser planejada com antecedência, marcar com o jornal, e por aí vai. Mas quem pode com a ansiedade das crianças? Conversa daqui, conversa dali e logo improvisamos umas “credenciais”, devidamente carimbadas e assinadas pela diretora da biblioteca. Pois é, convencemos até a dona Noêmi do Val Penteado, sucessora de dona Lenyra Fraccaroli, a primeira diretora da Biblioteca Infantil Monteiro Lobato.

Antes de partirmos para a aventura, dona Regina ainda nos avisou:

– Eu acho que vocês vão dar com a cara na porta! Eles devem ter mais o que fazer do que atender a um bando de crianças.

Da Rua General Jardim, onde fica a biblioteca até o Edifício Hotel Jaraguá, na Major Quedinho, onde era a sede de O Estado de S. Paulo, são uns vinte minutos de caminhada, que fizemos controlando a ansiedade.

Chegamos ao belo edifício bem na confluência da Major Quedinho com a Maria Paula, onde chamava a atenção o painel de Di Cavalcanti encimado por um quadro luminoso onde ficavam correndo as manchetes do dia. Desde que meu pai me havia introduzido nos rudimentos da eletricidade, sempre achei um mistério o funcionamento daquele painel luminoso.

Na portaria apresentamos nossas “credenciais” e explicamos o propósito de nossa visita. Para nossa decepção, o porteiro não deu muita bola para aqueles cartõezinhos, apesar das assinaturas da diretora e do carimbo da biblioteca. Mandou que esperássemos e voltou com outra pessoa que devia ser o chefe dele, pois também usava o mesmo tipo de uniforme. Contamos nossa história outra vez e ele por sua vez olhou com um pouco mais de atenção aos cartõezinhos. Mandou que esperássemos e telefonou para alguém. Logo veio um senhor de terno, que ignorando totalmente nossas preciosas “credenciais”, perguntou o que pretendíamos. Após contar pela terceira vez o que queríamos, ele pensou um pouco, telefonou para alguém e, em seguida, pediu que o acompanhássemos ao elevador.

Não me lembro para qual andar fomos levados, mas chegamos a uma grande sala de escritório onde estava um senhor magro, com um bigodinho aparado e o cabelo cuidadosamente penteado e repartido ao lado. Não sei se era alto, pois naquela época todos os adultos me pareciam altos. Estava sentado à sua mesa de trabalho e fiquei impressionado com as enormes pilhas de revistas e jornais que atulhavam a mesa. Muito sério, mandou que entrássemos e perguntou quem éramos, o que fazíamos, o que queríamos do jornal, etc. Pela quarta vez contamos tudo de novo, agora com mais detalhes.

A esta altura eu já começava a pensar que tinha entrado numa fria e aquilo não ia acabar bem. Passaram pela minha cabeça as histórias que ouvi sobre o Juizado de Menores, chamar os pais para explicações, coisas desse tipo. Após o interrogatório, chamou outra pessoa por telefone e disse em tom autoritário:

– Mostre todo o jornal aos garotos. Quero que eles conheçam tudo: redação, fotografia, oficinas, despacho, tudo! Não deixe nada de fora!

Não preciso dizer a alegria (e o alívio) que me invadiu ao escutar aquelas palavras.

Ao sair da sala, nosso acompanhante deu um sorriso e disse:

– Vamos lá. Ordens do Dr. Ruy

Essa ficou na minha lembrança. Uma lembrança de Ruy Mesquita, por tantos anos diretor do Jornal da Tarde e posteriormente de O Estado de S. Paulo. Faria 91 anos no próximo sábado, 16 de abril, mas a morte o colheu em 21 de maio de 2013.

A visita foi ótima, voltamos à biblioteca todos cheios, qual cavaleiros triunfantes chegando de uma batalha. A reportagem saiu.

E de quebra fiquei sabendo como funcionava o tal painel luminoso.

* O memorialista e pesquisador Edison Loureiro é economista aposentado.

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