Um papagaio na Vila Madalena
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Um papagaio na Vila Madalena

CRÔNICA

Edison Veiga

25 Abril 2017 | 16h16

Foto: Edison Veiga/ Estadão

Foto: Edison Veiga/ Estadão

Venha ver na janela, tem um papagaio na nossa árvore, mulher me disse, ela ainda no quarto, eu já na cozinha fazendo meu café. Por que diabos um papagaio na Vila Madalena, pensei abrupto e bruto, para depois ceder ao bucolismo, caminhar de volta ao quarto, espiar pela janela, vencer a inveterada miopia e o renitente astigmatismo e conseguir ver um vulto verde no alto de um dos galhos mais altos da nossa árvore – nossa é força de expressão, óbvio, porque a árvore é pública, está em logradouro público, ninguém vai privatizar árvore, espero.

O vulto verde quase escondido em meio às folhas verdes, julgo pelos meus óculos, era mesmo um papagaio. Amazona aestiva, lá no nome científico.

A árvore eu não sei o nome. Não sou bom de árvores.

Que bonito, um papagaio na Vila Madalena, a natureza persistente, o verde invadindo o concreto. Exclamações aqui.

Depois, a realidade. Por que diabos um papagaio na Vila Madalena? Para um homem massacrado pela poluição sonora paulistana, um papagaio ousa significar mais barulho na alvorada, currupaco para cá, currupaco para lá, onomatopeia imprecisa dos gracejos linguísticos desse penugento invasor da minha malha viária, do meu bairro, da minha rua, da minha árvore. Por que diabos um papagaio na Vila Madalena? Já não tenho eu ruídos de sobra para me interromper o sono, o descanso, o sossego?

Tem os ônibus relinchando logo cedo. O triste repicar do sino da igreja do Largo de Pinheiros. O vendedor de tapioca com sua matraca diária, pontual, sempre às 7h50. O outro ambulante que toca uma buzininha sete minutos depois – e não faço a menor ideia do que vende, apesar de rogar contra ele pragas contumazes.

Tem o insolente e inoperante Psiu, programa da Prefeitura que jamais ouviu minhas súplicas nem as de meus vizinhos. Talvez não ouça as reclamações justamente porque é muito o barulho em volta. Explico: na dobra do quarteirão onde moro há um hostel que pensa que é balada – ou uma balada que finge ser hostel. Daí que sem isolamento acústico algum é dos apartamentos do meu prédio que aturamos os altos decibéis de suas festas todas as terças, todas a quintas e, ultimamente, aos sábados também. Noite adentro. Dormir é impossível. A sinfonia catatônica é piorada porque, no mesmo embalo, bebês choram – certamente despertados de seus sonos devido ao barulho, devido às vibrações tectônicas causadas pelo mesmo.

Tem também a obra. Sempre há uma obra. No vizinho do andar de baixo. No vizinho do andar de cima. No vizinho da frente. Na calçada. No terreno do outro lado da rua. São Paulo é uma cidade em obras.

E tem ainda os áudios de WhatsApp esta catapora contemporânea, versão 2.0 e mais abrangente dos nextéis outrora empunhados pelos operários e motoboys. Eles representam a falta de concisão absoluta, a dificuldade em resumir uma ideia em uma centena de caracteres e a necessidade de explicá-la em arquivos de dois minutos. São a barganha onerosa do dinamismo pela enrolação, da sofreguidão pela sofrência.

Eu não preciso de um papagaio.

Ele voou.

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