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Um diálogo de cinema

Edison Veiga

14 Janeiro 2011 | 00h12

CRÔNICA
FOTO: EVELSON DE FREITAS/AE

– E o que vai abrir no lugar? Uma igreja? Um estacionamento? Um prédio de 38 andares?

– Não sei, não sei. É a vida, né? A cidade é um monstro em mutação. Que nem aquela música do Caetano, como é mesmo?

Vaca profana: de perto ninguém é normal?

– Não, não é essa. É aquela que homenageia São Paulo. O nome… SP?

Sampa.

– Isso.

– Que tem a música a ver com o cinema?

– A força da grana que ergue e destrói coisas belas… Isto é São Paulo. Mas também poderia ser qualquer outra metrópole.

– Você está parecendo um filósofo antediluviano.

– Agressão gratuita agora?

– Olha só: não fazem o menor sentido essas chorumelas. Pronto, falei.

– Como assim? Quanta insensibilidade!

– Se todas as pessoas que estão reclamando na internet, na rua, nos cafés fossem lá ao menos uma vez por semana… Seria o cinema mais movimentado de São Paulo! Até oba-oba lá em frente andam organizando.

– É, talvez você tenha razão…

– Você mesmo, tá aí de chororô mas me diga: quantas vezes lá esteve no último ano?

– Vale contar filme que não vi até o fim?

– Olha que maravilha! Quer dizer que finalmente Medos Privados em Lugares Públicos vai sair de cartaz!

– Ainda está em cartaz?

– Sim, recordistão. Desde 2007.

– Por que será, hein?

– Vai ver eles encanaram com o filme.

– Ou o rolo ficou preso na máquina velha de projeção e não sai mais.

– Ô, maldade…

–Mas sabe, eu estava pensando. Não é porque eu só fui uma vez lá no ano passado – e nem vi o filme até o fim, porque era chato pra caramba e a sala, desconfortável – que eu amo menos aquele cinema.

– Aham.

– Não debocha, não. Estou falando sério. Gosto de sabê-lo lá, na esquina da Consolação com a Paulista, há tanto tempo… Sessenta e oito anos, não é isso? Gosto de sabê-lo importante, memória absurda de uma São Paulo que ficou para trás. Gosto de lembrar que naquelas salas escuras conspirações devem ter acontecido, gente importante se emocionou, amores nasceram e brotaram. Gosto de pegar a programação dos cinemas no jornal e ver o nome dele ali, mesmo que eu acabe indo em outro.

– Uma opção a menos sempre será uma opção a menos?

– Quanto mais há por se fazer, mais há para se negar.

– Este papo me deu vontade de ir ao cinema. Vamos?

– Demorô. Em qual?

– Ah, vamos num shopping mesmo? É mais prático… E depois podemos aproveitar e comer em algum fast-food da praça de alimentação.