Traços de família
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Traços de família

Com sobrenomes consagrados, nova geração de arquitetos paulistanos busca transcender o trabalho de seus pais

Edison Veiga

09 de agosto de 2015 | 00h01

Foto: Werther Santana/ Estadão

Foto: Werther Santana/ Estadão


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Um sobrenome chamou a atenção quando foi inaugurado, no início do ano, o Espaço Alana, centro cultural mantido por ONG homônima no Jardim Pantanal, extremo leste de São Paulo. O arquiteto autor do prédio, com inconfundíveis curvas e cores, chama-se Rodrigo Ohtake (foto acima). Sim, é filho do famoso arquiteto paulistano Ruy Ohtake, célebre por obras como o prédio do Instituto Tomie Ohtake, o Hotel Unique, entre outras tantas.

É comum filhos seguirem os pais na hora de escolher a profissão. No caso da arquitetura, em que uma carreira demora às vezes décadas para ser reconhecida, um sobrenome famoso pode ajudar, sobretudo no início. Mais que isso, percebe-se uma semelhança estética nos modelos de uma geração para outra. “O que eu tento buscar de diferente do meu pai ainda está por vir, já que estou ainda em busca de minha linguagem própria”, admite Rodrigo, que tem 30 anos e divide sua rotina entre duas empreitadas – no horário comercial é “mais um” arquiteto na equipe do pai; na hora do almoço e durante a noite, trabalha em projetos próprios, como o do Alana.

É inegável que a paixão pela arquitetura veio de berço. Além do pai, Rodrigo tem mãe e tio arquitetos. E a avó, morta em fevereiro aos 101 anos, artista plástica das mais importantes do País, também se esmerava por formas e cores. “Arquitetura era o papo nas refeições, era assunto em tudo. Nasci nesse meio, nunca me vi pensando em ser outra coisa”, conta Rodrigo.

Foto: Hélvio Romero/ Estadão

Foto: Hélvio Romero/ Estadão

Também filha de pai e mãe arquitetos – Marcos e Marlene Acayaba –, Marina Acayaba (foto), de 34 anos, precisou experimentar outros caminhos antes de, finalmente, dar o braço a torcer e entregar-se à vida das pranchetas. “Cheguei a cursar três anos de economia na USP”, diz ela. “Quando paro para pensar sobre essa escolha, a única resposta que encontro é que o prédio da faculdade de Economia é em frente ao da de Arquitetura, na Cidade Universitária.” Não demorou, é claro, para ela “atravessar a rua” e mudar de curso.

“Sempre fui fissurada em planta de projeto, desde criança. E nas viagens de infância com meus pais, o que mais fazíamos era ver arquitetura, né?”, explica. Antes de começar a graduação, entretanto, Marina fez uma espécie de estágio com o pai. “Fiquei seis meses, para ter a certeza de que era isso mesmo que eu queria. Aprendi a desenhar, essas coisas. Meu pai sempre foi meu orientador profissional”, diz ela, que hoje atua em escritório próprio.

Foto: José Patrício/ Estadão

Foto: José Patrício/ Estadão

No caso dos Kogan, a arquitetura já está na terceira geração. Aron, morto em 1960, foi engenheiro-arquiteto – projetou, ao lado de Waldomiro Zarzur, morto em 2013, grandes edifícios erguidos nos anos 1950 e 1960, como o São Vito, demolido em 2011, e o Mirante do Vale, até hoje o mais alto arranha-céu paulistano. Marcio (à direita, na foto), de 63 anos, pouco conviveu com o pai. “Ele morreu quando eu tinha 8 anos mas obviamente influenciou a minha vida”, relata. “Minha última memória foi andando juntos de mão dada numa laje recém concretada em algum andar muito alto de um prédio em construção aqui em São Paulo.”

Desde 2008, Marcio tem a companhia do filho Gabriel (à esquerda, na foto acima) entre os arquitetos de seu escritório. “A relação profissional é boa”, afirma o filho, hoje com 30 anos. “Ele tem um domínio muito impressionante da profissão e sempre aprendo com ele, desde da organização de planta, até questões de legislação da cidade.”

Gabriel hesitou muito se seguiria os passos profissionais do pai. “Eu decidi que ia estudar arquitetura na fila de inscrição para o vestibular. Pensava em ser jornalista e estudar história. Esses dois assuntos, curiosamente, também fazem parte do meu dia a dia hoje, já que – junto com a prática de arquiteto – trabalho com jornalismo e meu mestrado é sobre a história de São Paulo.”

Das antigas. Não é só a nova geração que segue os passos dos pais. Há exemplos também entre os consagrados. Roberto Aflalo Filho leva nome e sobrenome do pai, com quem trabalhou, aliás, de 1973 a 1992 – quando ele morreu, aos 66 anos. “Havia de fato em casa um ambiente impregnado de escritório, de arquitetura e arquitetos, que sem dúvida me influenciou na escolha da carreira”, conta Roberto, hoje com 62 anos. Ao fazer uma autoavaliação de seu trabalho, vê muitas semelhanças com o estilo do pai. “Não temos muitas diferenças, mas evolução”, pontua. “São outros tempos, outras tecnologias, outras escalas, etc. Talvez ele tenha sido mais rigoroso na sua expressão arquitetônica enquanto eu posso ser mais eclético algumas vezes.”

Uma história corrente entre arquitetos diz que Oswaldo Bratke, morto em 1997 aos 89 anos, aposentou-se quando o filho, Carlos Bratke, hoje com 72 anos, começou a carreira. “Não quero ser concorrente de meu próprio filho”, teria dito o velho Bratke. Carlos ri e tenta desmentir o que já se tornou lenda. “Foi brincadeira dele”, explica. “Ele continuou mais um pouco, sim. Diminuiu o ritmo, é verdade, mas é porque já estava velhinho.”

Trabalharam juntos por algum tempo, aliás. “Desde os 14 anos eu vivia no escritório dele. Desenhava pequenas coisas, como luminárias. Ele nunca me forçou a nada, mas me ensinou a montar perspectivas, essas coisas”, relata. “Sem nenhuma pressão. Mas aquilo tudo me atraía muito.”

TAL PAI, TAL FILHO
“Fui como um estagiário de meu pai. Obedecia a ele ipsis literis”
(Carlos Bratke)
“Desde os 7 anos de idade visitava obras com o meu pai e já gostava de desenhar prédios modernistas copiando o que ele fazia divertindo os adultos com os meus croquis cubistas e corbusianos”
(Marcio Kogan)
“A influência do meu pai foi indireta. Minha mãe também é formada em arquitetura, apesar de não exercer. Cresci, portanto, ouvindo discussões sobre arquitetura na mesa de jantar e visitava edifícios emblemáticos com eles em viagens, mesmo quando tinha apenas 10 anos”
(Gabriel Kogan)
“Além de cores e curvas, tanto eu quanto meu pai buscamos uma estrutura de muita liberdade. Claro que tem todo um pensamento por trás, um conceito. Mas o primeiro risco é muito intuitivo”
(Rodrigo Ohtake)

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