Testemunha da História de SP: na festa da imperatriz
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Testemunha da História de SP: na festa da imperatriz

O historiador e arquiteto Paulo Rezzutti foi testemunha das exumações dos restos mortais dos membros da família imperial do Brasil

Edison Veiga

26 de março de 2015 | 07h07

Foto: Helvio Romero/ Estadão

Foto: Helvio Romero/ Estadão


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Foram poucas as testemunhas das exumações dos restos mortais dos membros da família imperial brasileira, realizadas para estudos pela primeira vez em quase 180 anos entre fevereiro e setembro de 2012. Sob sigilo, trabalharam na operação arqueólogos, médicos, historiadores e restauradores, entre outros profissionais. Os “menos de 10” que estavam na cripta do Ipiranga – no Parque da Independência, próximo ao Museu Paulista – quando foi exumada a segunda mulher de d. Pedro I, a imperatriz Amélia de Leuchtenberg, puderam participar de uma estranha comemoração: a festa de 200 anos da nobre, “de corpo presente”.

Era 31 de julho, data exata do aniversário de Amélia. “Velinhas rosas (uma lembrança da Ordem da Rosa e da condição feminina da aniversariante) ornavam um belo e suculento bolo de chocolate vindo da Padaria Maria Louca. Afinal, não é avó que geralmente é a boleira da família?”, relata o historiador e arquiteto Paulo Rezzutti, 42 anos, autor de livros como Domitila – A Verdadeira História da Marquesa de Santos e que prepara o lançamento de uma biografia do imperador d. Pedro I.

Comes e bebes na cripta imperial

“Também tinha brigadeiro, sanduíche de metro e outros acepipes, além de refrigerante, tudo para homenagear a Imperatriz Amélia, de corpo presente. Obviamente, ela foi respeitada, e o ataúde não foi aberto, até porque seria desconfortável participar dos comes e bebes com máscaras e luvas cirúrgicas cobrindo rostos e mãos.”

Foto: Acervo Paulo Rezzutti

Foto: Acervo Paulo Rezzutti

Foto: Acervo Paulo Rezzutti

Foto: Acervo Paulo Rezzutti

Revelado com exclusividade pelo Estado, o processo que contou com análises dos restos mortais da família imperial foi conduzido pela historiadora e arqueóloga Valdirene do Carmo Ambiel, com o apoio da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). O estudo mostrou que d. Pedro I tinha quatro costelas fraturadas do lado esquerdo, o que praticamente inutilizou um de seus pulmões – fato que pode ter agravado a tuberculose que o matou, aos 36 anos, em 1834. Os ferimentos constatados foram resultado de dois acidentes a cavalo (queda e quebra de carruagem), ambos no Rio, em 1823 e em 1829.

A pesquisa também desmentiu a versão histórica de que a imperatriz Leopoldina teria caído, ou sido derrubada, de uma escada no palácio da Quinta da Boa Vista, então residência da família real. Segundo a versão, ela teria fraturado o fêmur. Nas análises no Instituto de Radiologia da USP, porém, não foi constatada nenhuma fratura nos ossos da imperatriz.

No caso da segunda mulher do imperador, a nobre aniversariante, a descoberta mais surpreendente veio antes ainda de que fosse levada ao hospital: ao abrir o caixão, os pesquisadores viram que a imperatriz está mumificada, fato que até então era desconhecido em sua biografia. O corpo da imperatriz, embora enegrecido, está preservado, inclusive cabelos, unhas e cílios. Entre as mãos de pele intacta, ela segura um crucifixo de madeira e metal.