Testemunha da História de SP: ele pegou o último bonde
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Testemunha da História de SP: ele pegou o último bonde

Engenheiro aposentado recorda-se de nostálgico passeio que fez com o pai, em 1968

Edison Veiga

17 de março de 2015 | 07h22

Foto: Acervo Estadão

Foto: Acervo Estadão


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“Lembro da atitude de meu pai, circunspecto, com postura. Era como se estivesse saindo para namorar minha mãe”. É assim que o engenheiro aposentado José Roberto Gomes de Rocha, de 62 anos, recorda-se do dia em que seu pai, na época contador, depois advogado, Roberto Rocha (que morreu em 1985), o chamou com um convite um tanto incomum: vamos dar uma volta de bonde, que hoje é o último dia desse transporte aqui em São Paulo?

Era 27 de março de 1968. José Roberto tinha 16 anos. “Eu morava na Vila Mariana e estudava no (Colégio Marista) Arquidiocesano, de modo que ia a pé. Então não era comum eu usar o bonde, não”, conta ele. “Mas, naquele dia, meu pai me chamou e disse: ‘venha, se arrume aí que nós vamos dar um passeio’. E foi um passeio saudosista, com meu pai sorrindo o caminho todo”. Mais velho de quatro irmãos, José Roberto foi a única companhia do pai naquela despedida. “Lembro-me dele repetindo: ‘filho, essa é a última viagem do bonde de São Paulo’”, diz.

Percurso tinha 12 quilômetros

Encerravam-se, portanto, com os cerca de 30 minutos ou 12 quilômetros entre o prédio-sede do Instituto Biológico, na Vila Mariana, e o Largo Treze de Maio, em Santo Amaro, os serviços prestados pelo bonde de Santo Amaro – a Linha 101. A comitiva final, de 12 bondes “camarões” – o apelido veio da cor avermelhada – partiu lotada. Dentro deles estavam muitos paulistanos saudosos, como José Roberto e seu pai. O carro de número 1.543 levava as autoridades, dentre elas o então prefeito de São Paulo, o brigadeiro José Vicente de Faria Lima (1909-1969) e o governador do Estado, o advogado Roberto Costa de Abreu Sodré (1917-1999).

Foto: Acervo de Família

Foto: Acervo de Família

Os últimos bondes a circular por São Paulo sepultavam uma história iniciada em 12 de outubro de 1872, quando foi inaugurada a linha pioneira da rede paulistana, com os veículos então puxados por burros. Uma saga que acabou modernizada a partir de 1899, com investimentos de um grupo de investidores canadenses que conseguiu uma concessão para explorar um pacote de serviços públicos na cidade – inclusive o transporte. Foi com a The São Paulo Tramway, Light and Power Company – ou simplesmente Light, como ficou conhecida – que São Paulo ganhou os primeiros bondes elétricos, em 7 de maio de 1900.

Bonde ‘atrapalharia’ o progresso

Mas, naquele início de 1968, as autoridades municipais alardeavam que os charmosos bondes – que tantos milhares de paulistanos levavam para lá e para cá -, com seu ritmo lento, atravancavam o progresso. Não à toa, a lateral de um dos veículos naquele último trajeto havia uma faixa afixada, onde se lia “Rendo-me ao progresso! – Viva São Paulo! – Viva Santo Amaro!”.

Foi uma opção. Desde então, ao contrário de muitas capitais europeias onde esse tipo de transporte convive com os modernos, nunca mais um bondinho trafegou por São Paulo.