Lar, doce lar… E não vou sair ou mudar
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Lar, doce lar… E não vou sair ou mudar

Histórias de quem resiste a deixar ‘prédio da Universal’ ou permitir pintura verde de fachada

Edison Veiga

08 Outubro 2016 | 16h00

Foto: Daniel Teixeira/ Estadão

Foto: Daniel Teixeira/ Estadão

Em parceria com GABRIEL JUSTO

Religião não se discute. Futebol, também não. A sabedoria popular desafia o limite da convivência de alguns paulistanos: enquanto uns pagam os próprios pecados junto ao gigantesco Templo de Salomão, a sede mundial da Igreja Universal do Reino de Deus, no Brás, zona leste da cidade, outros vivem na marca do pênalti ao lado de fanáticos integrantes da Mancha Verde, a principal torcida organizada da Sociedade Esportiva Palmeiras, na Pompeia, zona oeste.

O drama de quem mora no Edifício Vidago (foto acima), vizinho à igreja inaugurada em 2014 pela Universal, lembra aquele retratado no longa Aquarius, em que Sônia Braga interpreta uma jornalista aposentada que vive sozinha num prédio de frente para a Praia de Boa Viagem, em Recife. Ela foi a única moradora que decidiu resistir às diversas investidas de uma construtora que pretende demolir o edifício que dá nome ao filme e construir um novo empreendimento no terreno.

A 2,6 mil quilômetros do cartão postal pernambucano, os moradores da Avenida Celso Garcia são os últimos remanescentes do quarteirão que se tornou sede mundial da Universal. Antes da obra, começaram a ser assediados. Alguns apartamentos, avaliados em R$ 90 mil, chegaram a ser comprados por R$ 240 mil. Dos 40 proprietários, 10 resistiram – e seguem com seus donos “originais”.

Dois anos depois, o clima é de apreensão. “Dos que foram embora, pelo menos uns 25 foram com medo, porque as ameaças aconteciam. Eles passavam as gruas da construção por cima do prédio toda hora, como se quisessem dizer: ‘Vocês não vão vender, não? Vamos dar uma balançada nesse prédio aí para vocês verem o que vai acontecer”, disse ao Estado um dos três moradores que aceitou conversar com a reportagem – todos pediram anonimato, temendo represálias. “É muito perigoso.”

Após a inauguração do templo, as demonstrações de poder da Igreja não cessaram. “Esse quarteirão inteiro é cheio de seguranças. E armados, viu? Não se pode nem encostar nas muretas da igreja. E é gente barra pesada, que conhece o lado ruim das coisas”, afirmou o morador. “Aqui, se você baixar a guarda…”

Como proprietária da maioria do edifício, a Universal decidiu reformar sua fachada a fim de diminuir o impacto do Vidago na paisagem do Templo. Apesar de mais bonito por fora, no interior do prédio restou muito a fazer. “Começaram a quebrar e foram embora. Acabaram com a nossa garagem, com o parquinho das crianças… E não acho que vão arrumar”, afirma o morador. Isso tudo acabou encarecendo o condomínio. Nas assembleias, os 10 remanescentes acabam sendo voto vencido diante de 30 condôminos “da igreja”. “Antes, eu pagava 400 e poucos reais por mês. Agora, são mais de 700”, disse outro dos vizinhos.

De acordo com moradores da região, a Universal também tem comprado outros prédios e estacionamentos das redondezas para acomodar colaboradores do Templo e ônibus que trazem fiéis de todo o Brasil para os cultos.

Foto: Amanda Perobelli/ Estadão

Foto: Amanda Perobelli/ Estadão

Rua verde. Do outro lado da cidade, o quarteirão da Rua Caraíbas mais próximo do Allianz Parque, o estádio do Palmeiras, tem se transformado em uma rua verde. Nas últimas duas semanas, moradores de lá vêm sendo convencidos por torcedores a deixarem que suas fachadas sejam pintadas. De verde, é claro.

Ao menos por enquanto, eles estão fazendo tudo certinho. Só pintam a casa de quem autoriza – por escrito e gravando um depoimento em vídeo. E não estão forçando ninguém a aceitar. “A minha casa já estava toda pichada mesmo, então achei que era uma boa aceitar, apesar de não ser palmeirense”, disse a dona de casa Telma Vecchione, de 56 anos. A costureira Maria José (foto abaixo), de 51 anos, cuja fachada é cor de rosa com desenhos aludindo à sua atividade, foi uma das que não topou. “Falei que verde eu não quero. Se quiserem pintar de branco, eu deixo. Mas é preciso respeitar os desenhos”, impôs.

Foto: Amanda Perobelli/ Estadão

Foto: Amanda Perobelli/ Estadão

Palmeirense, o dentista Miguel Maiello, de 58 anos, também bateu o pé. “Não quero. Acho que todos têm de ter o livre arbítrio. Minha casa eu pinto da cor que eu quiser. E o fato de eu ser palmeirense só reforça o meu argumento”, afirmou ele.

O mais empolgado adepto da iniciativa é o empresário Roberto Pedro Sacchi, mais conhecido como Caveira, de 48 anos. “A minha casa foi a primeira a ser pintada e eu estou convencendo todos os outros”, contou. “Esta rua vai ficar famosa em todo o Brasil. Será a primeira rua totalmente verde.”

Mas o título de “casa mais bonita da rua” foi para a aposentada Ana Maria de Oliveira (foto abaixo), de 68 anos. Ela concordou com a iniciativa da Mancha, mas botou lá suas condições: em vez do mutirão promovido pela torcida, pintou com a tinta que ela pagou do próprio bolso e contratou um pintor profissional. “Agora eles passam aqui e reconhecem que a minha casa é a mais brilhante da Caraíbas”, disse, toda orgulhosa. “Está certo: sem brilho eu não vivo.”

Foto: Amanda Perobelli/ Estadão

Foto: Amanda Perobelli/ Estadão

Proprietário de quatro casas na rua – e administrador de outras seis, pois é dono de uma imobiliária –, o empresário Cleverson Ferraz chegou a enviar uma cartinha a seus inquilinos, aconselhando-os a não aceitar participar da iniciativa. “Alertei sobre a situação e avisei que os contratos de locação preveem que o imóvel seja entregue como ele foi encontrado, e isso inclui a pintura da fachada”, contou. O argumento vem sendo utilizado pelos resistentes. “Foi o dono do prédio que não autorizou”, justificou-se o cabeleireiro Jonathas de Oliveira, de 26 anos. “Eu não perco meu tempo com futebol. Mas se querem pintar aqui, precisam procurar o proprietário. Sou apenas inquilino”, afirmou o chaveiro Damião Nunes, de 73 anos.

“Minha casa não foi pintada. Já me procuraram e eu não vou deixar pintar. Isso é um retrato da arbitrariedade no Brasil”, disse outro morador, que pediu para não ser identificado. “Uma pessoa bota na cabeça que tem que pintar tudo e aí todo mundo tem de pintar da cor que ele gosta. E se não fizer, tem represália: pichações, essas coisas. Eu moro aqui há mais de 70 anos, desde que eu nasci, na mesma casa.”

“Eu até gosto do Palmeiras, mas aquele verde que eles pintam eu não gosto. Eu nasci aqui na rua, não sou muito de futebol, mas não desgosto do Palmeiras”, continuou. “A reação dos outros moradores está igual à minha: uns querem, outros não. Quem está com a fachada suja e não tem como pintar aceita porque é bom pra eles, né? São vários problemas… E você sabe que torcida é triste.”

Casos. Para a socióloga Mônica de Carvalho, do Núcleo de Pesquisas Urbanas da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), o que há em comum nesses dois casos é uma falta de compreensão do que deve ser uma cidade. “Eles sugerem a criação de guetos identitários, ou seja, de um grupo que tem uma mesma identidade. Isso é ruim, porque pressupõe que você tenha ao seu lado apenas seus iguais, quando na verdade a cidade deveria ser um lugar diverso”, explicou. “O direito à propriedade deixa de ser algo que garante o seu território para ser algo que toma o espaço do outro. O espaço urbano, que é público, é visto como um território a ser dominado.”

Por meio de sua assessoria de imprensa, a Igreja Universal confirmou que os apartamentos do Edifício Vidago são destinados a pastores e bispos em visita missionária e ao corpo eclesiástico que atua no templo. A instituição, no entanto, nega que haja conflitos com os antigos moradores que ficaram por lá.

Já o presidente da Mancha Verde, Nando Nigro, ressaltou que a pintura das casas faz parte de um projeto de revitalização da Rua Caraíbas. “Fizemos um pedido de autorização padrão para os moradores”, explicou. Desde então, a Mancha já gastou cerca de R$ 4 mil com o projeto, mas não há planos de expansão para outros quarteirões da rua. “Dá muito trabalho”, afirmou.