Toninho Penteado: ‘Bravo! Bravíssimo!’
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Toninho Penteado: ‘Bravo! Bravíssimo!’

O dia em que o Teatro Municipal desfilou no Anhembi

Edison Veiga

09 Fevereiro 2015 | 19h00

Foto: Daniel Teixeira/ Estadão

Foto: Daniel Teixeira/ Estadão


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Abril de 2010. Pouco depois das Cinzas, nem bem haviam cessado as comemorações pelo vice-campeonato do Grupo de Acesso e pela subida para o Grupo Especial do carnaval paulistano, a Unidos do Peruche definia o tema do ano seguinte: o centenário do Municipal.

Aos 44 anos, o compositor de sambas-enredo Antonio Mendes de Lima Neto, mais conhecido como Toninho Penteado, decidiu participar. Eram mais de vinte concorrentes.

Chegou a filial do samba, podem aplaudir / O espetáculo vai começar, as cortinas vão se abrir / Vem cantar, vem sambar, do erudito ao popular / A luz, divina luz iluminou…

A cada eliminatória pela qual ele passava, uma comemoração. O ex-cantor de MPB na noite paulistana, que vive de comprar e vender sucata na Freguesia do Ó, bairro onde mora, queria vencer para ter o privilégio de levar para o Sambódromo do Anhembi a sua obra: um enredo que trouxesse o erudito do Municipal para o popular do carnaval. E embolsar o prêmio de R$ 17,6 mil.

– Eu só conheço bem o teatro por fora. Era freguês antigo do Mappin, então sempre passava em frente, né? Por dentro, não era para mim: o teatro é erudito, de elite. Só entrei uma vez. Em 2007, quando estudava na Universidade Livre de Música. Era um espetáculo de graça, não me lembro do nome da cantora. Eu nem olhei tanto para o show. Fiquei impressionado com a arquitetura do teatro, aqueles camarotes, sabe? Aquilo ali, meu, nossa, fiquei imaginando aquilo ali entupido de gente. E a acústica, dá para cantar na boa sem microfone.

E num sonho de modernidade Minha São Paulo acreditou / E assim nasceu o templo das artes / Lar de grandes marcos culturais / A Pauliceia Desvairada foi a sua grande inovação / Com a arte brasileira em exposição.

Escola acabou rebaixada

– O segredo é levar o tema ao mesmo nível do povão. Com palavras simples. A sinopse [pesquisa histórica preparada pelo carnavalesco e equipe da escola para nortear o trabalho dos compositores] falava sobre vários artistas que se apresentaram no Municipal. Como é que você vai falar? O nome de cada um? Não dá. Senão o samba fica com aquele monte de nome que ninguém entende. Então eu pus de uma maneira assim: “palco divino de estrelas”. Sintetizei de maneira fácil para as pessoas. Tinha de falar dos eventos culturais que aconteceram lá. Então coloquei “lar de grandes marcos culturais”. Pronto, com isso você mata o problema, entendeu?

Palco divino de estrelas / Bravo! Bravíssimo / A ópera trouxe emoção / E conquistou seu coração.

– Eu gosto de cantar na linha explosiva. Me preocupo muito com os refrões. Quanto mais empolgante, mais a escola canta fácil. Senão fica morna, né, cara? O ‘bravíssimo’ foi a grande sacada minha no samba. Imaginava o povo gritando ‘bravo, bravíssimo’ depois dos espetáculos do Municipal.

Na dança, bailarinos contagiam / Num mundo de sonhos e ilusões / Na dramaturgia, fascinantes inspirações / Dramas, comédias, sinfonias / E acordes musicais a tocar / Fazendo a plateia delirar / O seu futuro é agora / Nesse centenário de glória / Vem aí a Praça das Artes / Pra escrever uma nova história.

Apesar do otimismo da escola, não deu. A Quarta-feira de Cinzas foi triste para a Unidos do Peruche em 2011. Com 247,25 pontos, a agremiação amargou a última colocação e foi rebaixada do Grupo Especial.

Nos braços do povo / Lá vem a Peruche de novo / Parabéns! / Ao Theatro Municipal / Que é inspiração pro meu carnaval.

Excerto do livro O Theatro Municipal de São Paulo: Histórias Surpreendentes e Casos Insólitos, de Edison Veiga e Vitor Hugo Brandalise (Senac, 2013)