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SP já teve até concurso entre pichadores

Edison Veiga

18 Janeiro 2017 | 16h32

Foto: Evelson de Freitas/ Estadão

Foto: Evelson de Freitas/ Estadão

Ao declarar guerra aos pichadores de São Paulo, o prefeito João Doria compra uma briga legítima – afinal, arte é uma coisa, vandalismo é outra. Há, entretanto, duas observações relevantes. A primeira: muito cuidado na preservação dos grafites, já incorporados à cultura paulistana, cidade esta que se transformou, nos últimos anos, em uma vibrante capital da arte de rua.

A segunda observação é justamente qual será o melhor jeito de combater as pichações. Afinal, ao longo da história, sempre que é confrontada abertamente a categoria costuma responder com mais ênfase. Ou seja: com mais pichações nas ruas.

Foi o que ocorreu, por exemplo, em 1991. O Teatro Municipal havia acabado de passar por uma grandiosa reforma e estava tinindo, pronto para comemorar seus 80 anos. Bem, aí aconteceu o que está narrado abaixo, em excerto do livro ‘O Theatro Municipal de São Paulo: Histórias Surpreendentes e Casos Insólitos‘, que publiquei em 2013 em parceria com Vitor Hugo Brandalise.

“Gruts” e “Visão”. As pichações, marcadas com tinta cinza nas paredes de arenito amarelo da lateral do Theatro Municipal, encerraram um insólito concurso criado pelas gangues de pichadores da cidade: quem seria o primeiro a deixar sua marca no recém-restaurado teatro? O prêmio para o vencedor, de Cr$ 3 milhões a Cr$ 5 milhões, era o assunto principal das reuniões noturnas dos pichadores da cidade, geralmente na rua São Bento.

Em 1991, o Municipal estava em evidência: além do 80º aniversário, completado em setembro, o restauro da fachada terminara havia pouco. A maior glória para um pichador naqueles dias seria “enganar os gambés” e encher de tinta o “templo da elite”.

Anderson Luiz Bessa Peres, o Bessão, de 16 anos, já era pichador experiente quando soube da premiação. Refletiu que não teria vida fácil: logo que os jornais noticiaram o concurso, a guarda do teatro foi reforçada. Além da Polícia Militar, quatorze guardas-civis se revezariam em turnos ao redor de um Municipal novo em folha.

Mas Bessão conhecia a área: trabalhara como office-boy no Mappin, ali em frente, e sabia onde os policiais se concentravam à noite. E não era nas laterais. Por dois meses, Bessão e outro integrante da gangue, Anderson de Souza, o Boy (cujo pai era segurança do Mappin), estudaram a movimentação dos guardas, em incursões noturnas à praça Ramos de Azevedo.

Na madrugada de 23 de janeiro de 1991, acompanhados do colega Marcinho, eles encontraram a situação ideal: dois caminhões de carga impediam a visão da lateral do teatro, na rua Conselheiro Crispiniano; dois PMs estavam em frente ao Mappin e o guarda-civil, na escadaria. Tudo conforme o planejado. Ninguém os veria, nem incomodaria.

– Não tem muro, nem alto nem baixo, que nos segure.

E a gangue de Bessão – os “Gruts” – deixou sua marca na octagenária parede. Na sequência, foi a vez da turma “Visão”, de Márcio. Quando Boy se preparava para cravar seu “Fora da Lei”, um vigia de uma loja próxima o flagrou. Gritou alto, chamando o guarda-civil. Os três dispararam pela rua 24 de Maio em direção à praça da República, mas foram alcançados e, finalmente, encurralados pelos policiais.

O concurso tinha um vencedor: Bessão. Que agora estava preso no 3º Distrito Policial, na rua Aurora. Ao delegado, justificou-se:

– Tem gente que curte skate, futebol, dançar… Eu adoro pichar.

“Se candidato a deputado, vereador, prefeito, governador, presidente, picha, suja a cidade na época de eleição, por que eu não posso?”, complementou Boy.

Apesar da “façanha”, Bessão nunca recebeu o prêmio. “Essa história do concurso realmente foi discutida, falava-se muito disso nas reuniões dos pichadores”, revelou o grafiteiro Osvaldo Júnior, o Juneca, que participou de algumas reuniões, sem, porém, fazer pichação nenhuma, dedicado que estava ao grafite e às artes plásticas. “O primeiro a conseguir ganharia notoriedade, nem que fosse por 15 minutos. Mas prêmio não houve. Eles não eram organizados o suficiente para isso.”

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