Solar devolve bens de Domitila à USP
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Solar devolve bens de Domitila à USP

Museu do Ipiranga recolhe itens por conta de vencimento de apólice de seguro; para historiadores, caso mostra abandono da 'memória imperial' em São Paulo

Edison Veiga

31 de outubro de 2015 | 16h00

Foto: Márcio Fernandes/ Estadão

Foto: Márcio Fernandes/ Estadão


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O historiador e arquiteto Paulo Rezzutti conduzia um grupo de estudantes em tour pela região central de São Paulo na semana passada. Na parada para visitar o Solar da Marquesa, casa-museu que, no século 19, foi endereço da mais famosa amante de d. Pedro I, Domitila de Castro Canto e Melo, a Marquesa de Santos, uma triste surpresa: não havia ali mais nada, nenhum objeto, que remetesse à ilustre moradora.

O episódio funciona como uma metáfora de como São Paulo trata mal a memória do período imperial – época da qual Rezzutti, membro titular do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, é especialista. Administrados por diferentes órgãos, Solar da Marquesa, cripta imperial e Museu Paulista, todos elementos contadores de parte dessa história brasileira, passam por problemas.

Sujeira e degradação. “Sempre recordarei o ambiente impregnado com o cheiro de urina que vinha do lado de fora das antigas portas de bronze da cripta imperial, que hoje servem de mictório público. O mesmo país que trouxera o corpo de d. Pedro o trata hoje como refugo. O líder que soube abrir mão do Brasil e das demais coroas que lhe foram oferecidas também chegou a perder a Constituição — aquela de bronze — que jazia sobre a campa de seu sarcófago, roubada em plena luz do dia.”

O parágrafo acima é trecho do recém-lançado livro D. Pedro – A História Não Contada (Ed. LeYa, 464 pág., R$ 59,90). O autor, o historiador e arquiteto Paulo Rezzutti, está se referindo à cripta imperial, monumento localizado no Parque da Independência, no bairro do Ipiranga, onde estão sepultados o primeiro imperador do Brasil, d. Pedro I e suas duas mulheres, Leopoldina e Amélia. E, seja pela descrição de Rezzutti, seja pelo visível estado de deterioração do painel externo, de bronze, o recado é claro: a cidade não vem cuidando dos símbolos do período imperial. Até a réplica da primeira Constituição brasileira, de 1824, feita em bronze, que ficava em cima do sarcófago onde estão os restos mortais de d. Pedro foi furtada, no ano passado – e até agora, não reposta.

“Há por aqui uma mania acadêmica de se fazer o desmonte da história em favor daquela que se quer bem contada”, avalia o historiador e arquiteto. “E, infelizmente, isso não se resume à cripta.”

Rezzutti cita o Solar da Marquesa como outro símbolo de negligência das autoridades. “Passou por restauro há tão pouco tempo e já está com problemas nos batentes das janelas”, enumera ele. Além disso, ele acredita que o histórico da casa não é explorado como deveria. “A exposição que havia com itens da Marquesa foi desativada”, critica. “E não há explicação sobre os antigos moradores da casa, nada.”

De fato, de novembro de 2011 até a última semana, objetos que pertenceram à Domitila e que são do acervo do Museu Paulista estiveram emprestados ao Solar, para a mostra de longa-duração ‘A Marquesa de Santos: Uma Mulher, Um Tempo, Um Lugar’. Eram 47 itens. Dois foram devolvidos em junho de 2012; 37, em junho deste ano, quando a mostra foi encerrada; os oito itens restantes ficaram em uma sala de porta semiaberta até semana retrasada, quando começaram a ser preparados para a devolução, ocorrida na última quinta (confira abaixo a relação completa dos itens). O motivo da solicitação, segundo a Universidade de São Paulo (USP), administradora do Museu Paulista: o vencimento da apólice de seguro, condicionante do empréstimo. “O Museu Paulista não tem nova exposição própria nem externa programada para esse acervo, porém permanece disponível para receber, analisar e, na medida do possível e do interesse público e institucional, atender a novas solicitações e pedidos de empréstimos ou termos de cooperação”, informa a instituição, em nota enviada ao Estado.

As críticas são endossadas por outro historiador, professor da USP, que pediu para não ser identificado. “Antes, havia uma exposição ali sobre a Marquesa. Agora, a casa parece ter perdido sua vocação, está sem foco”, comenta.

Responsável pelo Solar, a Secretaria Municipal de Cultura ressalta que a casa “não é um museu dedicado à Marquesa” e que mesmo “antes do último restauro já não havia um acervo específico dela” – no próximo dia 7, o endereço abre nova exposição de fotografia.

Guardião de boa parte desse passado, o Museu Paulista – mais conhecido como Museu do Ipiranga – está fechado ao público desde agosto de 2013, devido a problemas de deterioração em seu prédio-sede. Não há previsão de reabertura.

Arquiteto e historiador, Benedito Lima de Toledo sustenta, em seu livro São Paulo: Três Cidades em Um Século (Ed. CosacNaify, 192 pág., R$ 88), que a natureza urbana tem esse dinamismo, de se modificar a uma velocidade tão grande que, apenas no século 20, foram três São Paulos completamente diferentes. “O que sobrou mesmo do período imperial foram as igrejas que já existiam naquela época”, exemplifica. “Mas nem isso, já que a antiga Catedral da Sé foi demolida e deu lugar à construção atual.”

Respostas. Questionada pelo Estado, a Prefeitura informa, em nota, que, no caso da cripta, “o Departamento do Patrimônio Histórico (DPH) vem formulando uma proposta global para tratamento do Monumento à Independência”. O último restauro ali ocorreu entre 2005 e 2006, com patrocínio da iniciativa privada. Em 2014, o DPH realizou a contratação, pelo valor de R$ 160 mil, do restaurador francês Antoine Amarger, o que resultou na elaboração do projeto executivo de todo o complexo. “Inicialmente, será priorizado o restauro do painel externo em bronze, em alto relevo, que reproduz o quadro ‘Independência ou Morte’ de Pedro Américo. Esta ação será uma oportunidade de aquisição de experiência e treinamento de restauradores brasileiros que participarão junto aos restauradores franceses, entre eles, o próprio Amarger”, informa a administração, ressaltando que a recuperação do painel custará cerca de R$ 1,1 milhão.

A Secretaria Municipal de Cultura ressalta que a recuperação do monumento é uma das prioridades da gestão – mas ainda não há data estipulada para o início dos trabalhos. Em conversa com o Estado, o secretário Nabil Georges Bonduki afirmou querer que as obras comecem em 2016. Quanto ao furto do ornamento simbolizando a primeira Constituição, a secretaria diz que o fato “resultou em uma sindicância interna”, mas confirma que “o objeto ainda não foi reposto”.

Quanto ao Solar da Marquesa, a secretaria lembra que “após quatro anos em exibição, a mostra ‘A Marquesa de Santos: Uma Mulher, Um Tempo, Um Lugar’ foi desmontada em maio de 2015”. O órgão diz que a exposição “cumpriu seu planejamento como mostra de longa duração que reinaugurou o Solar da Marquesa em novembro de 2011, após restauro do prédio, realizado durante dois anos”. Ao Estado, Bonduki afirmou que “hoje a ideia de um museu é a de ter sempre novidades”, mas não descartou, em um futuro próximo, que haja nova exposição sobre a ilustre moradora.

A secretaria ainda diz que “a necessidade de intervenções para conservação das janelas são de conhecimento da nova direção do Museu da Cidade de São Paulo e devem ser corrigidos nos próximos meses”.

Em nota, a direção do Museu Paulista informa o andamento da transferência dos acervos do prédio-sede, interditado, para que o mesmo possa passar por obras de restauração – processo que segue sem orçamento e previsão de início, entretanto. “Continuamos, internamente, trabalhando com muito rigor para a transferência cuidadosa de acervos do edifício-monumento para os novos imóveis, apesar das limitações financeiras da universidade”, afirma o texto. “Os gestores reitorais estão buscando patrocinadores para que ocorram avanços nos estudos e projetos com vistas ao restauro, modernização e ampliação do edifício principal do Museu Paulista.”

A seguir, a relação completa dos objetos do Museu Paulista que foram emprestados ao Solar da Marquesa:

1.Ferraduras (par) com 10 cravos
2.Cadeirinha de arruar
3.Escrivaninha portátil de uso masculino
4.Escrivaninha portátil de uso feminino
5.Tinteiro de louça
6.Canapé-marquesa
7.Retrato a óleo suposto da Marquesa de Santos
8.Retrato a óleo do Brigadeiro Raphael Tobias de Aguiar
9.Sofá de palhinha
10.Cadeira de braços de palhinha
11.Cadeira de braços de palhinha
12.Sofá de palhinha
13.Piano
14.Espevitadeira com bandeja
15.Manda de candeeiro
16.Xícara com pires
17.Xícara com pires
18.Xícara com pires
19.Açucareiro com tampa
20.Xícara de café com pires
21.Paliteiro
22.Cálice pequeno
23.Cálice pequeno
24.Cálice pequeno
25.Cálice pequeno
26.Canapé
27.Mesa de jogo
28.Armário-vitrine
29.Pasta
30.Espada
31.Espingarda de pederneira
32.Carabina de pederneira
33.Espingarda de percussão
34.Bacamarte de pederneira
35.Pistola de percussão
36.Leito
37.Estrado do leito da Marquesa de Santos
38.Pente (prendedor de cabelo)
39.Armário guarda-comida
40.Travessa
41.Travessa
42.Travessa
43.Tigela
44.Cômoda
45.Ferro de passar
46.Mesa-escrivaninha
47.Vitrine oval

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