O templo do sexo na telona em SP
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O templo do sexo na telona em SP

Edison Veiga

10 de janeiro de 2014 | 15h43

La dolce vita… e morte do Cine Dom José, no centro paulistano

Por LUIZ FERNANDO TOLEDO

FOTO: PAULO PINTO/ ESTADÃO

Sobre um tapete vermelho, centenas de homens e mulheres aguardavam em uma fila enorme que ultrapassava a calçada do cinema Jussara, no centro de São Paulo, em algum momento dos anos 60. Eles, de terno e gravata. Elas, trajando longos impecáveis. Assistiriam a alguma nova produção do cineasta italiano Federico Fellini naquele dia. Sem o traje social ninguém podia entrar, por obrigação de etiqueta. A grandiosa sala de 1122 metros quadrados acomodava 1400 lugares, 400 no balcão e outros mil na platéia principal. Localizada no número 288 da rua Dom José de Barros, era palco para a visitação de uma sociedade paulistana que, para alguns, seria a mais bela de todas na história. E na história ficou.

Ao longo dos cinquenta anos que se passaram, Jussara foi rebatizado como Cine Dom José. Fellini foi substituído por Juventude Indecente 2, filme erótico cujo diretor não parece ser o maior atrativo ao público composto em sua maioria por homens acima de 60 anos. Não há trajes sociais e nem filas, mas a clientela do cinema erótico é expressiva, ocupando pouco mais da metade dos 600 assentos atuais, já sem o balcão. Nas raras aparições de mulheres no local, o consenso de “agir com respeito” fala mais alto – talvez a nova regra de etiqueta imposta pelos atuais frequentadores do espaço.

Um andar acima da mesma construção, o proprietário do cinema faz reviver a trajetória entre estes dois cenários discrepantes – mas evitando os juízos de valor – enfatizando com frequência que não quer difamações ou interpretações preconceituosas do novo ramo de atividade praticado no local. O homem de 84 anos tem longos fios de cabelo prateados que parecem ter sido cuidadosamente penteados. Com pouco mais de um metro e setenta de altura, veste um paletó preto e usa um par de óculos discreto, que costuma guardar no bolso quando não está lendo. Fala com a voz pausada e baixa, mas em tom assertivo. Em suas explicações, emenda aqui e ali algumas expressões francesas de seu repertório, fazendo questão de traduzir e até escrever no papel a grafia de cada uma delas. Mesmo não sendo exatamente um anônimo, já que também é proprietário de uma conhecida produtora e distribuidora de filmes, o empresário pediu para não ter o nome citado na reportagem por estar cansado de dar tantas entrevistas. Para tratá-lo como pedido, ele é FL.

Logo atrás de uma longa mesa de madeira, FL bate os pés no chão de modo marchado, enquanto relata a ida das salas de cinema para os shoppings, processo que ocorreu nos anos 80, um dos principais motivos de todos os cinemas de rua terem desaparecido no Brasil. O outro teria sido o que chamou de “deterioração” do centro de São Paulo. “Já passaram pela cidade uns oito prefeitos e nenhum fez nada pelo centro. Depois das 19h ninguém mais quer andar por aqui”, comentou. Cada batida do sapato no chão avermelhado corresponde a uma palavra dos lábios.

Para ele, é impossível insistir em uma sala com “boa programação” em um lugar tão abandonado. Em maio de 2009, reportagem do Estado mencionava um projeto da Secretaria da Cultura de São Paulo que visava trazer filmes “de verdade” novamente ao Dom José e tantos outros cinemas do Centro. Questionado, a resposta foi breve e sem mais detalhes: “e eles têm dinheiro pra isso?”. FL é assim. A cada resposta dele, duas novas perguntas no ar. Ou dez.

O homem bem vestido conta que chegou a comandar mais de 100 salas por todo o País, quase metade delas na cidade de São Paulo. Grande parte foi vendida para igrejas ou estão simplesmente abandonadas. A história da sétima arte na cidade se confunde com a sua história, já que, disse ele, foi o responsável por trazer grande parte dos títulos europeus – entre Fellini, Pietro Germi e Alain Resnais – para o Brasil, além de distribuí-los para as atuais redes de cinema e canais de televisão. No tempo áureo da “cinelândia paulistana”, cerca de 10 a 15 filmes eram exibidos pela primeira vez no país nos principais cinemas do centro e depois iam para os bairros.

Enquanto os americanos da década de 60 mantinham a supremacia de clássicos como Psicose, de Hitchcock, e Se Meu Apartamento Falasse, de Billy Wilder, Jussara se aventurava pela joie de vivre (alegria de viver, traduziu FL) dos filmes italianos. “Foi a época áurea do cinema europeu, que durou mais ou menos 15 anos”, contou FL. As cadeiras de madeira foram substituídas por estofados mais confortáveis e o cinema de rua estava em seu auge por mais ou menos duas décadas, até a derrocada no início dos anos 80. FL volta a bater os pés e fixa o olhar em algum canto do enorme saguão.

Presente. Na bilheteria, uma funcionária ouve o cliente. “O que tem hoje?”, questionou o senhor. Ela respondeu que era “filme”, e ele perguntou qual. “É filme de sexo”, respondeu, visivelmente constrangida, com as mãos um pouco trêmulas e evitando, a todo custo, o olhar do homem. Mas houve persistência: “qual deles? Eu quero saber o nome”, ele disse. A atendente mais jovem adiantou-se e confirmou a informação, encerrando o impasse.

O Cine Dom José é o último sobrevivente do legado, assim como o próprio FL. “Não sobrou nenhum funcionário, já morreram todos. Fiquei apenas eu”, contou. A empresa tem, segundo ele, apenas três empregados: dois guardas e uma atendente na bilheteria. Todo o resto, como a limpeza, é terceirizado.

Os guardas ficam responsáveis por instaurar as regras da casa, descritas em inúmeros cartazes distribuídos pelos corredores. “Senhores frequentadores, é proibido fazer programa neste local”, diz um dos textos afixado na parede que FL apontou mais de uma vez. Ali não é permitido nenhum tipo de ato sexual – além dos exibidos no telão, é claro.

Luiz – que não quis identificar sobrenome – tem 47 anos e passa o dia cruzando os largos espaços da enorme sala de cinema do Cine Dom José com uma pequena lanterna de luz azul na mão direita. O guarda é homem de confiança de FL. Quando aponta os feixes em alguma direção, olhos receosos dos visitantes entregam que alguma regra foi desrespeitada. Em uma rápida visita à exibição de Juventude Indecente 2, numa tarde ensolarada de sexta-feira, um casal homossexual parecia ter passado dos limites. Bastou perceberem a presença de Luiz para que interrompessem o ato imediatamente. “O pessoal sabe como as regras da casa funcionam. Se desrespeitar tem que sair”, aponta.

A sala tem um forte cheiro de cloro, mas o odor não parece afastar os presentes. O público se movimenta bastante e assiste até em pé, apesar das 600 cadeiras de couro. Muitos se encostavam às paredes. A maioria das pessoas tem mais de 60 anos de idade, mas há jovens e até mesmo casais, tanto gays quanto heterossexuais. Namorar ali é permitido.

Há até mesmo alguns cadeirantes. Sentado em uma poltrona da primeira fileira e com um olhar de quem parecia extremamente atento, um senhor que aparentava quase 70 anos sequer reparou na reportagem acompanhada de FL e Luiz. “Ele vem aqui toda semana”, contou o guarda.

Os banheiros não têm portas. “Para evitar o que não queremos”, salientou FL, que disse desconhecer a existência dos “cinemas de pegação” em São Paulo. “Em sala de cinema comum acontecem mais coisas do aqui na minha”, ironiza.

Além das telas. Entre a bilheteria e o grande salão de exibição dos filmes, existe uma espécie de espaço de convivência. “Estes homens vêm procurar o que não encontram na rua. Aqui nessa cidade não tem nem banco onde eles possam sentar”, disse FL. Os clientes que pagam a entrada podem passar o dia todo lá, se quiserem. O salão abre às 9h e fecha às 19h30. Por ali eles fazem amizades, batem papo e levam até notebooks. “Tem gente que não está nem aí para os filmes”, contou Luiz.

Fora do saguão principal, o segundo andar da construção abriga atualmente um espaço para o nascimento de outra arte: ali ensaiam duas trupes de teatro, Cia Les Commediens Tropicales e Cia Defeitos. A atriz e produtora Tetembua Dandara, do Les Commediens, conta que chegou lá a convite do filho de FL, que se envolveu em um projeto de teatro em 2008. Em agosto deste ano, apresentaram no espaço, pela primeira vez, o espetáculo gratuito “Corra como um coelho”, que teve oito exibições com 40 pessoas cada. “Logo tomam o espaço todo pra eles”, brincou FL, que também já foi dono de um teatro na praça Júlio Mesquita.

Se não for aos atores, será para qualquer outro ramo. Cansado da insistência de uma vida toda lutando pelo cinema e após décadas brigando pelas paredes do Cine Dom José, FL já sentencia o fim de uma era. Do alto da escadaria de saída de seu escritório, o último senhor dos cinemas divide uma confissão que em algum momento poderia estar nos livros de história da cidade. “Acho que este lugar dura mais um ano, no máximo”.

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